Ambrosia Colunas Olhares & Observações: RPG traduzido?

Olhares & Observações: RPG traduzido?

Uma breve revitalizada neste espaço que outrora se propôs a ser uma coluna, mas que hoje é apenas um subtítulo para meus artigos que buscam ser uma local de debates sobre temas pertinentes ao RPG (e há quanto já não escrevo sobre RPG).

Esta questão começou com o anúncio da editora do Mundo das Trevas da Devir, Maria do Carmo Zanini, de que o próximo livro para a linha, Mago: o Despertar, seria lançado em fevereiro. Obviamente a notícia gerou vários comentários, muitos deles levantando velhas reclamações sobre os livros traduzidos no Brasil.

Devo admitir que não faço parte do público consumidor destes livros, já que há muitos anos minha coleção de RPG é composta inteiramente por títulos originais, contudo não posso negar que boa parte desta postura teve sua origem com uma qualidade fraca e erros grosseiros em boa parte das versões brasileiras de livros nos anos noventa. Ainda sim, acho que as duas coisas que realmente me fizeram desistir de comprar esse gênero de livro aqui no Brasil foi a demora para a chegada dos títulos (que hoje em dia já deixo quase todos em pré-ordem pela amazon, me garantindo uma entrega que as vezes chega antes do prazo de lançamento dos livros) e principalmente preço, tirando excelentes exceções como a genial sacada da Jambô com Mutantes e Malfeitores, é consideravelmente mais barato comprar lá fora.

Dito isto, volto ao tema que gerou a discussão, a tradução de Mage: the Awakening para o português. A notícia, como mencionei teve alguma repercussão nas listas que participo e entre meus amigos jogadores e a fala geral era mais negativista e incerta quanto a qualidade da tradução.

Tradução é de fato um trabalho um pouco apto a gerar muitas discrepâncias, para o mal e para o bem. Existe por exemplo um certo mito sobre as traduções das obras do Paulo Coelho fora do Brasil, alguns dizem (e eu estou apenas reproduzindo o que eu ouvi embora não acredite que seja realmente verdadeiro) que o autor, detentor de um grande prestígio internacional, é reconhecido como um grande escritor lá fora justamente por que possui excelentes tradutores. Mas uma vez, acho difícil responsabilizar um tradutor pelo sucesso de outrem, embora o mesmo não se aplique quanto ao fracasso.

Felizmente, no caso dos livros de RPG que foram traduzidos no Brasil, exceto por pequenas partes de ficção, a escrita original do livro tenta soar como clara e até mesmo homogênea, o que facilita muito o trabalho da tradução em manter o contexto original do texto. E devemos dizer que no geral estamos vivendo uma período feliz em termos de livros por aqui, lembro de ler pela blogosfera rpgística, grandes elogios a fidelidade da quarta edição do D&D, e em grande parte posso dizer que vi o mesmo ocorrendo com o Mundo das Trevas.

Confesso que desconheço o editor novo do D&D, mas acompanhei de perto o trabalho da Zanini nesta odisséia que tem sido trazer o “Despertar” para o Brasil. E afirmo, por mais que tenha demorado, o livro certamente vai valer a pena, e digo isso não em termos de conteúdo, mas em termos de edição mesmo. Estaremos diante de uma alternativa que certamente irá fazer frente com o livro original, justamente por que teve tempo para se pensar e corrigir.

Portanto, resolvi escrever um pouco sobre este processo que levou bastante tempo para ser finalizado (considerando que o jogo foi lançado há cinco anos lá fora), por que vejo que ainda existem muitos ataques a esta “nova geração” de livros traduzidos, em sua maioria graças as rusgas deixadas por seus antecessores, e seus erros que acabaram se tornando jargões comuns entre os jogadores (nenhum exemplo pode ser melhor do Matilha de Lobisomens, nome que se tornou tão popular e que ainda hoje é ostentado pelo mais antigo blog nacional de RPG).

A primeira coisa relevante que devemos constatar é que estes livros novos foram traduzidos por tradutores profissionais (ao contrário de muitos dos antigos títulos) que também são jogadores. Para dar um exemplo, além da Zanini, cuidando pessoalmente da tradução de Mago, outro responsável foi o Fábio Sooner, um dos maiores conhecedores do cenário aqui no país e que trabalha regularmente como tradutor (que abriu recentemente um novo blog de notícias sobre WoD).

Eu mesmo, que acredito ter uma boa noção do sistema, já que venho o jogando desde o seu lançamento, tive a chance de ajudar na tradução oferecendo minhas versões para os termos chaves encontrados nos livros, função que pelo o que me foi dito, foi compartilhada com alguns outros jogadores de Mago.

Mais importante, estamos tratando de um livro que aborda temas extremamente complexos, possui um sistema de magia regrado mas inteiramente flexível, o que traz muitas dúvidas mecânicas, ou coisas que não conseguiram ser explicadas inteiramente em um espaço pequeno. Ao contrário do livro básico, Mago não tem uma errata oficial, ele possui uma errata compilada de entrevistas e dúvidas tiradas com Bill Bridges que na época era o desenvolvedor da linha. A partir das dezenas de questões expostas ali, a editora, me mandou um email (também para o Sooner e para o Leandro) pedindo nossa ajuda para peneirar as inconsistências, ou trechos pouco claros que poderiam ser encontrados no livro básico, e também compartilhou isso no fórum oficial do jogo, assim como suas dúvidas. Conseguindo perguntar algumas destas questões diretamente aos editores e autores originais do livro.

Portanto, esta discussão e todo este asco as versões nacionais de livros de RPG vieram a me incomodar profundamente quando tive a oportunidade de conhecer, e perceber a quantidade de trabalho e esforço depositado pela Maria do Carmo Zanini em seu trabalho, que hoje devo reconhecer, são absolutamente excelentes. É claro que ainda existem falhas, coisas escapam, mas nada que comprometa o todo (tipo a recusa de algumas de minhas sugestões como manter o termo Sanctum e Húbris, hahahaha).

Verdade seja dita, sei que em termos de perfumaria (para roubar a excelente expressão do paragônico Ooze) a Devir tem cumprido bem o seu trabalho, e os livros quase não possuem distinções visuais de seus originais, no entanto, levando em conta todo este processo que foi a construção da edição brasileira de Mago: os emails trocados com jogadores, os posts no fórum oficial, a discussão com editores e autores do livro original para deixá-lo mais claro e consistente; devo afirmar que estamos diante sim de um produto último no que concerne a linha, com vantagens e um acabamento textual que está até melhore do original, que como já critiquei antes não é dos livros mais completos e esclarecedores.

Estamos todos aqui do Ambrosia na torcida que as editoras de RPG aqui no Brasil continuem a melhorar e principalmente a ouvir e notificar seu público cativo. Este último item mencionado, informações, é talvez a melhor coisa que aconteceu com a Devir nos últimos anos, a existência de um espaço como o Contatos Imediatos e um Twitter, que efetivamente mantêm o público informado dos progressos que estão sendo feitos.

13 COMENTÁRIOS

  1. Eu estou mais ou menos na mesma situação: praticamente só compro livros originais, e mesmo no caso do Mutant & Masterminds, preferi pagar um pouco mais (e foi pouco a mais) para comprar o livro 100% colorido e capa dura. Num jogo de super-heróis, acho que cor faz bastante diferença no feeling do jogo.

    De qualquer forma, eu torço para que nossas editoras nacionais continuem seus esforços, nada simples, de editar RPG no Brasil. Gosto de saber que tem mais pessoas jogando RPG, porque acho que é um hobby bacana, sem riscos, relativamente barato, cooperativo e desafiador intelectualmente.

    Bom texto Fellipe.

    • E os quadrinhos preto e branco , como ficam??? nunca leu um gibi do fantasma em preto e branco????

      @Post

      Quanto as traduções , eu particularmente fico com uma pulga atras da orelha , recentemente saiu um previa do "Arsenal do Aventureiro" , a parte de "Alquimia" pra ser mas exato, encontrei alguns erros ortograficos na propria previa, como tb o nome dos itens com uma tradução nada amigavel. É algo bobo??? sim talvez ,mas juntando tudo isso prejudica legal o livro.

      Quando compramos um livro traduzido para nossa lingua , não só ajudamos com o capital de giro , mas tb incentivamos a coisa a andar melhor para poder traduzir mas para as pessoas que não sabe ingles ou não sabe como comprar produtos internacionais.

      Eu encomendei os dois livros do Forgotten Realms depois de ver esses pequenos incidentes na previa do "Arsenal do Aventureiro" , eu particularmente to pensando mil vezes antes de comprar o "Arsenal do Aventureiro" e esperar os comentarios dos outros quanto a tradução , pra depois eu comprar o meu.

      Ai agora é uma questão de tempo , ainda bem que a 4 edição tem poucos textos , por um lado foi ruim , por outro lado foi bom essa economia de textos que a wizards fez em seus livros. Acho que vc entendeu o que eu quiz dizer sobre a economia de textos.

  2. Felipe, o problema da tradução no Brasil é que é feita majoritariamente por amadores free-lancers atrás de um trocado que pouco se importam em conhecer a obra original ou buscam o domínio da língua portuguesa. Eu mesmo trabalho com tradução (jogos para computador do inglês para o português), mas por sempre ter lido muito desde criança e por causa da minha formação acadêmica em Jornalismo, eu me dedico a produzir uma adaptação coerente, clara e livre de erros.

    A Devir, Jambô e demais editoras estão certíssimas de procurar e aceitar as sugestões dos leitores e consumidores de seus produtos, ainda mais com a facilidade que a internet nos proporciona hoje em dia. Eu lembro quando eu comecei a jogar AD&D na década de 1990 e sofria com a tradução da Abril Jovem e foi em parte por preferir os livros de RPG originais em inglês que eu procurei aprender bem o idioma.

  3. Creio que um grande problema, além da própria tradução amadora de alguns títulos, é a falta de continuidade.
    Acompanhamos vários lançamentos lá fora e queremos ter também vários livros, suplementos, aventuras, etc… mas muitas vezes acontece de uma linha ser descontinuada ou abandonada!
    Um bom exemplo é o antigo mundo das trevas. Quem jogava (ou ainda joga) pode estar esperando ainda pela tradução de Hunter, Wraith ou algum outro suplemento. Mas muitos já estão com o novo WoD, e às vezes bate a apreensão: Será que vão traduzir o Promethean? e o Changeling? Quando? Será que vão esperar um novo apocalipse?

    Quem não tem prática para comprar os livros originais se frustra com esse abandono…

  4. Eu, desde as primeiras versões em português do NWoD, digo que as traduções da Devir estão bem melhores do que antigamente.

    Muita ente reclama de detalhes como se fossem erros de tradução. Muita gente que ganhou implicância com a Devir (com razão, é verdade) diz que a Jambô fez um serviço melhor no Mutantes e Malfeitores, o que não é verdade (Mutantes e Malfeitores já tem erros de tradução na capa).

    De qualquer forma, eu não compro mais nada da Devir enquanto não sair o GURPS 4ª edição. Hoje me viro com os livros importados mesmo.

    • Adorei… A++
      Certas pessoas não percebem o quão difícil é manter a aliteração e ainda assim ficar dentro do contexto. E o lance do mercado brasileiro em comparação ao americano nem precisa discutir, é óbvio, tem certos produtos que é piada você cogitar traduzir.

  5. Acho que a Devir tem de comer muito feijão ainda pra traduzir direito as obras.
    Não dá pra aguentar Malkavianos, etc (tradução de nomes, algo feito na época em que pros caras curinga e coringa eram a mesma coisa… ou ninguém lembra – em livros de história antigos, de Napoléon, Henry, Magdalene… imaginem seus nomes traduzidos… NOMES NÃO SÃO TRADUZIDOS). Além disso dá pra encontrar todo o tipo de pérolas como StarGazers que virou Portadores da Luz Interior… sendo que seria Observadores de Estrelas.
    Tradução é complicado só no Brasil que não valoriza a profissão de maneira nenhuma. Lá na europa costumam traduzir as coisas com lógica e rápido. Não tem como falar que esperar 5 anos pra ver um RPG em mãos é um trabalho legal, pois não é… Acho que a qualidade da tradução assim como a impressão deveriam seguir padrões de qualidade maiores e isso não é refletido em alta de preços não, basta achar tradutores competentes que saibam traduzir coisas de fantasia e dividir o trabalho com um método de colaboração pela internet.
    Já faz muito tempo que essas editoras existem, é lógico que os erros iniciais podem ser perdoados, mas passar a mão na cabeça não tem como.

    É bom ver editoras como a Jambo surgindo no mercado nacional pra tornar a competição um novo pingo de vergonha para os que fazem o trabalho nas coxas para edições de luxo. Temos de boicotar mesmo impressões de cores erradas, faltando, além das traduções mal feitas até que façam direito (vide várias graphic novels que recebem um bom tratamento no brasil. Menos a do Sandman Definitivo, lógico.)

    Abraços ae pro pessoal da Ambrosia, site ótimo o de vocês 😉

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