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Resenha – Nova Orleans: Cidade dos Amaldiçoados

Ao contrário da maioria das resenhas de livros de RPG aqui no Ambrosia, esta será feita de forma mais breve. O livro não apresenta regras e nem é muito grande, já que se trata apenas da descrição de uma cidade no mundo de Vampiro: O Réquiem.

Acredito que seja importante iniciar essa resenha dizendo que, por mais que eu goste do atual trabalho que vem sendo feito com o Mundo das Trevas no Brasil, sempre vi com maus olhos a publicação deste livro. A própria editora já se manifestou a este respeito, e como eu não tenho acesso aos dados de venda da Devir, me sinto inclinado a acreditar sim que os jogadores Brasileiros gostam deste tipo de livro, e contra este dado eu não tenho argumentos. Acho engraçado que isso pareça ser uma tendência bastante contrária com o que aconteceu na White Wolf, tanto que os desenvolvedores cancelaram novos títulos de cenários (como o Shadows of Mexico e as cidades que lançaram as linhas) justamente por estes despertarem pouco interesse do público.

Como narrador e jogador de Wod, efetivamente nunca me interessei por este tipo de publicação. Atualmente tenho diversas linhas completas deste RPG, mas nunca comprei um livro de cenário (ou seja, minhas linhas completas acabam faltando um livro, como é o Caso de Boston Unveiled em Mago: o Despertar), pois sempre achei muito mais interessante desenvolver o meu próprio mundo. Entendo que alguns narradores, até por falta de tempo, valorizam muito este tipo de livro, mas não consigo enxergá-lo como uma aquisição certa para todos os públicos de Vampiro.

Devo mencionar no entanto que Vampiro: o Réquiem é uma linha abençoada com uma das melhores ferramentas para se desenvolver cidades em um jogo de RPG, um livro chamado Damnation City. Um guia completo (maior até do que o livro básico) recheado de exemplos e detalhes de como se desenvolver uma cidade que pareça viva e crível. Algo que é útil até mesmo para jogadores de outros cenários, dada a qualidade do texto deste livro. Entendo também que seria muito mais caro produzi-lo, até porque é um caso de tamanhos muito díspares, Nova Orleans é um dos menores livros da linha com pouco mais de 100 páginas, já Damnation City é o maior livro da linha com 400.

Enfim, esse aviso se faz necessário, pois o leitor se encontra lendo uma resenha que já não era a favor de sua publicação antes mesmo dela sair, o que certamente pode influenciar alguns comentários. Isso não me impede de julgar o livro como sendo bom, ou prazeroso de se ler, queria apenas deixar claro que não acredito que ele deveria ter sido uma prioridade.

Conto e Introdução

Como em todos os livros do Mundo das Trevas, no início dele se encontra um conto, desta vez nomeado Chega a Tempestade. Nada de diferente aqui, se trata em verdade de um pequeno prefácio que lança mão de algumas idéias sobre como introduzir os jogadores na cidade (ou que tipo de besteiras eles fizeram para chegar até ali).

Logo em seguida, temos uma curta porém eficaz introdução, onde os autores explicitam melhor o uso dos capítulos, qual é o tema e o tom do livro, um léxico e as principais referências que podem ser usadas para se pensar a cidade.  Aqui também se encontra a importante diferenciação entre o Apêndice 2 de Vampiro: O Réquiem e este livro, que contém a “verdade oculta” a respeito dos personagens citados anteriormente.

Primeiro Capítulo: A Big Easy em Retrospectiva

O primeiro capítulo é bastante auto-explicativo. Basicamente temos uma história dos amaldiçoados na cidade desde os tempos pré-coloniais, quando um Vampiro Choctaw predava sobre a região, até os dias atuais, onde o Príncipe Vidal mantém um poder quase absoluto dos Lancea Sanctum na cidade.

A história do capítulo é bem escrita e interessante,  a ascensão de Vidal é bem articulada, e os habitantes de Nova Orleans parecem personagens bastante instigantes. Mais importante, este capítulo apresenta um bom número de ganchos que podem ser usados em suas crônicas, algo que é sempre bem vindo.

A única crítica que me parece caber aqui é que alguns eventos mortais citados no livro são usados com naturalidade no texto, que não tenta explica-los. Acho justo na medida que Cidade dos Amaldiçoados não tem a pretensão de ser um livro de história, mas isto pode se provar um pequeno problema para alguns jogadores que desconhecem a história da Big Easy. De toda forma, no fundo informatizado de hoje, qualquer busca rápida na internet é capaz de solucionar este tipo de dúvida.

Segundo Capítulo: Pontos de Entrada

Aqui é detalhado o dia a dia nesta metrópole bem como seus locais de interesse. Existe um bom grau de atenção tanto para o lado dos vampiros quanto o lado dos mortais. Como funciona a administração do príncipe Vidal, como suas leis são impostas, relação entra as seitas são apenas algumas das perguntas que são esclarecidas aqui. No campo mortal a mesma coisa, quais são os principais locais da cidade, quais a s principais datas, como funciona o sistema de transportes e outras questões.

Existem é claro algumas coisas questionáveis, como o porque de Vidal efetivamente tolerar outras seitas inimigas na cidade como o Círculo da Ancião e o Ordo Dracul, essa explicação aparece no livro, mas não convence, bem como outras pequenas questões.

Capítulos três, quatro e cinco

Reuni os três na mesma sessão, porque eles são mais ou menos idênticos em propósito. Basicamente, cada um deles é dedicado a descrever os NPCs da cidade, separando-os por idade (anciões, ancillae e neófitos). Os personagens são bem desenvolvidos e despertam interesse e atenção, mas o livro sofre uma falha um tanto chata. Primeiramente as estatísticas são muito variáveis, poucos tem todos os atributos descritos, e isso não é feito de forma coerente. Tem NPCs que tem habilidades, mas não tem atributos, ou tem tudo, mas não tem disciplinas, enfim, uma grande zona, que vale dizer, também encontrei na edição original em inglês.

Fora isso, diversos atributos são um pouco extravasados demais, mesmo entre os neófitos é comum encontrar personagens com mais de oito pontos de disciplina. Dada as recomendações de pontuação no livro do jogador, mesmo um personagem que começasse com o Xp de um ancilla que o livro básico sugere seria mais fraco que os neófitos da cidade.

Capítulos e Considerações Finais

Os dois últimos capítulos servem de forma majoritária aqueles que querem narrar uma crônica na cidade. O capítulo seis, intitulado Narrativa, dá dicas e estabelece alguns conceitos que podem ajudar os narradores que utilizarão Nova Orleans como cenário. O texto é competente e cumpre bem a sua função.

Já o apêndice, é uma crônica que remete diretamente ao conto introdutório do livro. Infelizmente a mesma se mostrou muito mal escrita e forçada. Para um grupo realmente aproveitá-la bem, ela precisa urgentemente de uma boa correção e adição por parte do Narrador. Da forma onde se encontra, é um típica história que banaliza a ação dos jogadores colocando NPCs para dar a mão e conduzir os personagens por toda  a história.

O livro como um todo não foi bem editado (mas não creio ser problema da edição nacional) já que ele foi escrito a várias mãos, diversas vezes transparecem informações contraditórias em suas páginas (um bom exemplo é o motivo do porquê o Príncipe Vidal não abraça), ainda que isto não comprometa a história relativamente sólida que transparece nas páginas. Ainda que seja interessante para entender como uma sociedade de amaldiçoados funciona, não sei o quanto este livro poderia ser útil para jogadores. A vantagem dele é o preço, e não deixa de ser uma leitura divertida (para quem gosta de ler livro de RPG).

Importante mencionar, a edição nacional vem com um imenso mapa da cidade, o que é uma idéia muito legal e bem vinda. O problema é que rostos imensos de NPC ocupam lugares vitais da cidade, fazendo com que boa parte do mapa pareça inútil. Teria sido melhor uma pequena legenda com o nome do personagem, ou o símbolo da facção, para que se mantivesse intacta a visualização da  estrutura da cidade.

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