Você tenta ficar de pé em meio ao caos, zumbis infestam todas as ruas, bairros e cidades que você conhece com sangue e medo. Eles estão em todo lugar e você precisa sobreviver, precisa de um lugar seguro para fugir dessa loucura e abafar seu desespero. Por mais que você não queira, precisa de ajuda. Você não pode se virar em tudo e talvez sua cabeça não fique no lugar por muito tempo sem alguém vivo para conversar…

Li sobre Shotgun Diaries a muito tempo atrás em minhas viagens pelo RPG Now observando as novidades do RPG indie nos EUA. Começando pelo nome impactante do jogo, aquilo que me fez clicar imediatamente para entender que RPG era aquele. A internet está cheia de relatos de partidas com o jogo, pelo visto ocorreu um pequeno hipe lá fora, outro detalhe que me motivou fortemente a joga-lo. Por que um RPG indie teria mobilizado tantos blogs de gostos tão diferentes?

Shotgun Diaries é um RPG onde os personagens tentam – eu disse tentam… – sobreviver a uma terrível infestação de zumbis que destruiu sua casa, cidade, seu país ou o mundo todo mesmo. Lembre dos filmes sobre o apocalipse zumbi, Shotgun Diaries cairá como uma luva se você gosta desse estilo. Ou não, você nem precisa gostar do gênero. Acredite, Shotgun Diaries proporciona uma experiência nova, dinâmica e bastante tensa onde o personagem sente na pele que cada vez mais o cerco se fecha e os zumbis inevitavelmente irão te pegar.

Os mandamentos básicos para sobreviver a um apocalipse zumbi estão lá. Não ande sozinho, fique sempre em grupo, busque sempre locais seguros, mantenha a cabeça no lugar e jamais fique muito tempo no mesmo refúgio. E todas elas foram abstraídas em regras que fazem o jogador se sentir ali, dividindo suprimentos e sendo favorecido pelo trabalho em grupo.

Como exemplo, pego duas idéias que percebi gerar grande tensão em mesa: O atributo Medo e seus dados e o Relógio Zumbi.

O primeiro é um valor que substitui a função de alguns dados de sua rolagem. Quanto maior seu Medo, mais dados são substituídos. Se você obtém um sucesso exatamente com os dados de Medo sua ação será positiva e você irá se salvar, mas ela será covarde e deixará meus companheiros na mão. Qualquer coisa traumatizante te obriga a testar o atributo Medo que sobe com muita facilidade no começo. Em jogo isso significa que a qualquer momento um dos seus companheiros de jogo pode deixar de te ajudar e em Shotgun Diaries isso não significa boa coisa…

O Relógio Zumbi é um marcador que insere drama e muita, MUITA agilidade ao jogo. Um cronômetro começa a correr a partir do momento que jogo começa e de 10 em 10 minutos um dia de jogo se passa, seus suprimentos diminuem e o número de zumbis que surgem aumenta. Assim mesmo, sem dó. Isso significa que acabaram as conversas paralelas, acabou toda aquela discussão longa sobre o que fazer para resolver aquele problema. De 10 em 10 minutos a vida fica mais difícil e você não pode fazer nada.

O trabalho em equipe é a única coisa que te salva nesse mundo sangrento e sem compaixão. O personagem só interfere na história do narrador quando ele pode rolar dados e para isso seu “tipo de personagem” tem que ser compatível com o desafio. Um personagem Forte não vai conseguir consertar um problema complicado no carro, isso é tarefa para o personagem Esperto. E se você não pode resolver o problema pode ter certeza, seus miolos serão comidos…

Agir em equipe te dá bônus e ter tipos de personagem variados no seu grupo ajuda a ampliar suas possibilidades durante a fuga.

Vejo problemas em Shotgun Diaries para jogadores e mestres que não estão acostumados a essa liberdade em jogo que o sistema de RPG proporciona. Dizer exatamente como vai ser a cena criando a história de forma colaborativa pode ser complicado para quem não está acostumado. Também achei o livro eletrônico pequeno e apesar de explicar bem as regras poderia ter uma maior área sobre ambientação do jogo, além de bem mais exemplos. A forma como ele foi escrito lembra muito aqueles RPGs feitos em 24 horas pela forma com que são organizadas as regras o que pode indicar que ele foi feito sem uma pretenção maior ou então seria apenas a forma habitual do Game Designer apresentar seus trabalhos.

Shotgun Diáries foi feito pelo autor John Wick como presente de aniversário para seu amigo Nick Watts. O quanto essa criação foi desproposital eu não saberia dizer, mas da soma de um sistema que enfatiza fortemente a narrativa e um tema tão popular na atualidade não poderia ter saído coisa melhor. Um jogo com regras tão enxutas pode facilitar muito na hora de introduzir a curiosos que não conhecem nada de RPG, a grande “burocracia” por traz da maioria dos “grandes” jogos de RPG conhecidos pode espantar novos jogadores.

Lá nos EUA aonde se discute fortemente novas formas de se jogar RPG, talvez Shotgun Diaries tenha conseguido mostrar como um jogo pode se tornar popular buscando o tema certo associado a um sistema que se adeque melhor a aquela proposta. Vale a pena conferir o jogo que tem sua versão eletrônica (em formato PDF) sendo vendida por um valor muito barato (5 dólares) e proporciona em troca para o grupo de RPG muito mais diversão que o custo poderia comprar. Fica a dica.

Nota: As imagens inseridas no post pertencem aos estudios de arte LnC que estão sendo divulgadas na página do Shotgun Diaries no Facebook.