Teatro

“O Capote” adaptado por Drauzio Varella

Akaki Akakievitch é o personagem do conto O capote, de Nikolai Gógol do século XIX. Pequeno, raquítico, ruivo e testa calva de um ministério x, de 57 anos é solitário e tímido.

Em cena, se introduz como um fantasma, mas é apresentado por seus dois alter-ego como irrelevante, frente a formação do sindicato, da segunda guerra mundial, unificação da Alemanha e o nascimento de Sigmund Freud.

Mas a estratégia de montar o conto adaptado por Dráuzio Varella, mostra o funcionalismo público como um relógio marcado, como ridículos que desaparecem diariamente para voltarem novamente com pontualidade.

Akaki quer contar sua história mas seus alter-ego não permitem, oprimindo sua fala, porque estão oprimindo o personagem do qual descendemos, de uma terrível e sombria solidão na política e economia.

Submetido a uma rotina de sacrifícios cumpre como um operário; todo dia leva trabalho para casa e sente prazer nisso, preso em sua rotina diária é alienado do mundo em que vive e nesta solidão o encaminhamento da narrativa fantástica é premeditado pelos alter-ego.

As agruras e angustias do personagem também são nossas, a ironia e sarcasmo são o riso nosso cheio de fel.

Diante de seu nariz seu subchefe ataca papéis na sua mesa enquanto, não se dando ao trabalho de usar de educação para solicitar a cópia de algum processo para Akaki.

Como um burocrata, ignorado por todos na repartição, é tratado com frieza e enquanto ele não ousa questionar, cumpre sua tarefa com resignação, obedece aos superiores e vai se tornando submisso e conformado.

Como galinha que cacareja no amanhecer, o expediente do burocrata é a janela que se abre ao galo exibido, alguns de ego inflado, outros com motivo de piada todo dia fazem vítima de riso.

A monotonia cinzenta do trabalho e pobreza de Akaki é tão real quanto paisagem e a cidade.

Como uma distração, o que o espreita, na sua convicção de prazer na rotina é o frio de Petersburgo.

Percebe por sua vestimenta que está desgastada e o frio penetra por suas costas, eis então que a quebra da rotina: o dilema na vida do personagem passa ser a economizar para conseguir comprar um novo capote, provocada necessariamente pelos alter-ego numa equação matemática de aquisição e renúncia.

Durante alguns meses o funcionário economiza para confeccionar o sobretudo, reduzindo suas despesas até deixar de comer, agora, seu alimento é a expectativa de um novo capote.

Finalmente Akakiévitch tem em mãos o dinheiro e consegue pagar pelo casaco.

Ele está mergulhado num gostoso devaneio, vai para o ministério e todos os colegas percebem a roupa nova.

Ele que arduamente arrecadou o dinheiro para comprar o capote confeccionado pelo alfaiate, conta desta vez sua história, não era mais um fantasma, a monotonia havia sido extraordinariamente extirpada de sua condição.

O-Capote-Foto-Joao-Caldas-2015

O capote que vestiu invisivelmente era sua própria condição, invisível aos olhos dos outros.

Na festa sua presença foi acompanhada de violão ao cantar Ouro de tolo de Raul Seixas.

A narrativa realista fantástica o esvazia do mundo de poder e aparência quando roubam seu casaco na volta para a periferia.

Num ato de desespero ele invade a sala de um alto funcionário e é totalmente ignorado em uma atitude prevalecida pelo seu status do superior.

Akaki volta da repartição e contrai uma angina que o faz definhar e morrer.

Sua morte é irrelevante como seus colegas de trabalho o consideravam e no leito de morte prevalece a hostilidade e frieza no discurso de despedida.

Ele retoma a cena, novamente como fantasma e mostra ao mundo que vivenciou a morte em vida.

Agora ele é um fantasma que surrupia em Londres, Berlim, Paris, Nova York, São Paulo e Rio de Janeiro; capotes, inclusive do alto funcionário que não atendeu sua causa.

Com trilha sonora ao vivo, dá relevância a alma, um ambiente frio, similar a um hospital, os alter-ego cumprem papéis diversos no desenvolvimento da peça com suporte de microfone.

AUTOR: NIKOLAI GOGOL
ADAPTAÇÃO: DRAUZIO VARELLA
DRAMATURGISMO:CÁSSIO PIRES
DIRAÇÃO: YARA NOVAIS
ELENCO: RODOLFO VAZ, RODRIGO FREGNAM E MARCELO VILLAS BOAS
MUSICISTA: SARAH ASSIS
CENOGRAFIA E FIGURINOS: ANDRÉ CORTEZ
VIDEOARTE E DESIGN DE PROJEÇÃO: ROGÉRIO VELLOSO
TRILHA SONORA E MÚSICA ORIGINAL:  DR MORRIS
PREPARAÇÃO CORPORAL E ASSISTÊNCIA DE DIREÇÃO: KENIA DIAS
CRIAÇÃO DE LUZ: BRUNO CEREZOLI
VISAGISMO: LEOPOLDO PACHECO
ARTE E PROJETO GRÁFICO: LÁPIS RARO
FOTOGRAFIA: JOÃO CALDAS
COORDENAÇÃO TÉCNICA, OPERAÇÃO DE LUZ E PROJEÇÃO: PEDRO AMPARO (BROW)
ASSISTENCIA DE FIGURINO: J.E.T.ICO GOMES
DESENHO DE CENÁRIO: FERNANDA OCANTO
CENOTECNIA: DENIS NASCIMENTO E JORGE FERREIRA
COORDENAÇÃO DE CONSTRUÇÃO DE CENÁRIO: JONAS SOARES
SERRALHERIA: DALTON NUNES
CONFECÇÃO DE FIGURINO: JUDITE LIMA
DIREÇÃO DE IMAGENS: ROGERIO VELLOSO E GEORGE QUIROZ
VIDEO-RELEASE: GEORGE QUEIROZ
COMPOSIÇÃO DIGITAL: SAULO SILVA
MAPPING DANIEL TODESCHI
PESQUISA DE IMAGENS: PROCURADORIA DE FILMES
ASSISTENCIA DE FOTOGRAFIA: ANDREIA MACHADO
ASSESSORIA DE IMPRENSA SP: POMBO CORREIO – HELO CONTRA E DOUGLAS PICCHETTI
COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO SP: MARLENE SALGADO
PRODUÇÃO LOCAL SP: BIA FONSECA
ASSISTENCIA DE PRODUÇÃO SP: VINICIUS GARCIA
CONTABILIDADE: INFOGRUPO
COORDENAÇÃO ADMINISTRATIVO FINANCEIRA: REGIANE MICIANO E MARCOS QUEIROZ
ELABORAÇÃO E ACOMPANHAMENTO DE PROJETO: ISABELLA MORAIS
COORDENAÇÃO GERAL: FERNANDA VIANNA
PRODUÇÃO EXECUTIVA: MIRANDA
PRODUÇÃO: OTIS PRODUÇÕES CULTURAIS E ROSE CAMPOS
PATROCÍNIO: BANCO DO BRASIL
REALIZAÇÃO: CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL

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