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The Undoing traz boas atuações e história mais simples do que parece

Estabilidade, riqueza e felicidade são desejáveis apenas na vida real, não na ficção. Uma obra de ficção – livro, filme, série ou outra – só é interessante quando existe um conflito que mexe com os personagens e os tira de sua zona de conforto. Acompanhar pessoas bem-sucedidas e felizes, dia após dia, não é interessante. Mas se algo acontece que quebra essa felicidade e calmaria, aí sim ficamos interessados. Em The Undoing, dois eventos ocorrem no mesmo dia e sacodem a vida perfeita de Grace, interpretada por Nicole Kidman: seu marido desaparece e a mãe de um colega de escola do filho dela é assassinada, sendo que a vítima parecia obcecada com Grace.

Jonathan Fraser (Hugh Grant) é oncologista especializado no tratamento de câncer infantil. Grace é terapeuta. Eles têm um filho de 12 anos, Henry (Noah Jupe), que frequenta uma escola de elite. Logo após um leilão para arrecadação de fundos para a escola, Jonathan viaja para um congresso e Elena Alves (Matilda de Angelis), mãe de um aluno bolsista do quarto ano, é assassinada. Quando as ligações entre Jonathan e Elena são descobertas, ele se torna o principal suspeito do crime.

Durante a investigação e o julgamento, surgem personagens instigantes, como o investigador Joe Mendoza (Edgar Ramírez) e a advogada Haley Fitzgerald (Noma Dumezweni). Grace nem sempre é educada com os investigadores e, na tentativa de se esvair de questionamentos, acaba ouvindo deles revelações que mostram como sua vida perfeita era uma farsa. Quem também contribuiu para essa farsa e para as aspirações de Grace em buscar a tal vida perfeita foi o pai dela, o milionário Franklin (Donald Sutherland), por vezes taciturno e calculista.

O caso é mais um daqueles para os quais todos os holofotes se voltam, parte por causa da riqueza dos envolvidos, parte por causa da brutalidade. Por isso, nessa sociedade do espetáculo, Jonathan e Grace experimentam a bizarra sensação de serem celebridades por motivos errados, com estranhos querendo tirar fotos de/com eles para postar nas redes sociais e paparazzi seguindo os dois para cliques indiscretos.

O espetáculo, obviamente, invade o tribunal, onde imagens impressionantes do corpo da vítima são mostradas para o júri e os presentes, onde defesa e acusação não economizam farpas, onde todos os subterfúgios são usados para investigar a vida dos jurados – descobrindo nível de escolaridade, estado civil e até mesmo se eles já foram traídos ou se traem seus parceiros. Vale tudo para conseguir um resultado que não necessariamente seja justo, mas que beneficie seu cliente.

Um dos produtores executivos da minissérie é David E. Kelley, que também produziu Big Little Lies. A direção dos seis episódios fica por conta da premiada diretora dinamarquesa Susanne Bier, a primeira diretora da história a ganhar um Oscar, um Emmy e um Globo de Ouro. A nova parceria entre Kelley e Kidman foi um sucesso de público, sendo que o último episódio da minissérie teve a melhor audiência da HBO desde o final da primeira temporada de Big Little Lies. A presença de Bier na direção também nos leva a refletir sobre como poderia ter sido a segunda temporada de Big Little Lies se a diretora Andrea Arnold tivesse suas escolhas artísticas e criativas respeitadas.

A minissérie The Undoing é baseada no livro “You Should Have Known”, de Jean Hanff Korelitz, publicado em 2014. No livro, Grace é o foco e Jonathan mal aparece, pois é ela que precisa rememorar e repensar toda sua história com o marido depois do desaparecimento dele. Na série, ele volta e há um longo julgamento que, apesar de interessante de se ver, empalidece em comparação com o que poderia ter sido se a adaptação fosse mais fidedigna. Talvez uma minissérie em flashback não funcionasse ao depender de diversas mudanças de visual – e “rejuvenescimento” dos atores – ou talvez o ritmo ficasse lento demais.

Hugh Grant está muito bem, num papel bastante diferente daqueles pelos quais ele se tornou conhecido, lá nas comédias românticas dos anos 90. Ele é um forte candidato ao Globo de Ouro na categoria Melhor Ator de Minissérie ou Filme para TV, mas terá de desbancar Mark Ruffalo, que interpretou dois papéis de maneira arrasadora em I Know This Much is True. Além dele, Nicole Kidman e Donald Sutherland são presenças certas entre os indicados na próxima temporada de premiação, com vantagem para o sempre ótimo ator veterano.

Mais do que um suspense eletrizante ou uma minissérie de mistério, The Undoing é uma prova do ditado “em casa de ferreiro, espeto de pau”. É uma obra sobre como nós nos distraímos, seguimos vivendo, muitas vezes buscando respostas profundas, enquanto a verdade está mais próxima e é mais óbvia do que imaginamos. Não chega a ter uma grande e surpreendente história, e algumas perguntas ficam sem respostas, mas vale pela consistência das atuações.

Nota: Ótimo – 3.5 de 5 estrelas

The Undoing traz boas atuações e história mais simples do que parece
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Publicado por Letícia Magalhães

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