Conhecido por retratar a tensão e o pragmatismo das engrenagens institucionais — do cinismo corporativo em Conduta de Risco (2007) ao amadurecimento revolucionário e cru na série Andor —, o cineasta Tony Gilroy retorna ao cinema com um projeto visceral e invulgar. Em Behemoth!, o diretor abandona temporariamente os corredores do poder político para se adentrar nos labirintos da memória, da obsolescência artística e do ego humano. O resultado é uma obra ambiciosa que, embora oscile em sua estrutura narrativa, encontra sua grande força no carisma vulnerável de Pedro Pascal e em uma arquitetura sonora revolucionária.
No centro dessa tempestade emocional está Alex Serian (Pedro Pascal), um virtuoso violoncelista e musico de estúdio que retorna a Los Angeles para gravar trilhas sonoras após anos excursionando. Pascal entrega aqui uma das atuações mais dinâmicas e introspectivas de sua carreira. Longe do herói estoico ou do homem protetor que o consagrou na cultura pop, seu Alex é um retrato denso de desorientação moral, vaidade e envelhecimento.
Nas mãos de Pascal, o violoncelo deixa de ser um mero adereço para se tornar um prolongamento de sua psique. Microexpressões de frustração, o cansaço físico do ato de tocar e o olhar nostálgico ao reencontrar figuras do passado — como a ex-companheira interpretada por Olivia Wilde — revelam um homem em constante atrito com o próprio legado. Pascal sustenta o filme com uma presença magnética, carregando o espectador mesmo quando o roteiro decide vagar por atalhos menos inspirados.
Se o arco do personagem se fragmenta, é a trilha sonora que atua como o verdadeiro fio condutor e elemento genial da produção. Para refletir a jornada do protagonista no universo das trilhas cinematográficas, Gilroy tomou uma decisão de produção inédita e ousada: reuniu um time de nove compositores de peso. Nomes veteranos como James Newton Howard, Alan Silvestri e Michael Giacchino dividem espaço com talentos contemporâneos como Michael Abels, Henry Jackman, Emily Bear, Lukas Frank e Nami Melumad.
A música em Behemoth! não funciona como um simples acompanhamento dramático; ela é a lente através da qual as memórias e emoções do protagonista ganham cor e textura. Cada partitura reflete o universo do filme dentro do filme para o qual Alex está gravando, criando um verdadeiro mosaico estilístico que vai do lirismo neoclássico à dissonância moderna.
A forma como essas composições são introduzidas é brilhante. O som do violoncelo de Alex oscila entre o controle obsessivo e o colapso subjetivo, fazendo com que a trilha sonora atue quase como um diálogo interno. É uma celebração afetuosa do ofício dos músicos de bastidor.
A direção de Gilroy é elegante e estilizada, trazendo um rigor técnico apurado para ambientes febris como estúdios de gravação, bastidores e jantares tensos em Los Angeles. No entanto, ao contrário de seus thrillers perfeitamente alinhados, Behemoth! adota uma estrutura não linear, repleta de flashforwards e saltos temporais que visam desconstruir o relacionamento de Alex com a arte e com as pessoas ao seu redor.
Essa abordagem cria momentos de catarse emocional genuína, mas também cobra seu preço. O filme por vezes se perde no próprio ritmo irregular, resultando em um estudo de personagem que flerta com o maneirismo conceitual. Ainda assim, a capacidade de Gilroy em extrair atuações afiadas do elenco de apoio — com destaque para Olivia Wilde e Eva Victor — mantém o interesse dramático aceso.
Filme: Behemoth! (Behemoth: Uma Vida Composta em Peças)
Direção e Roteiro: Tony Gilroy
Elenco: Pedro Pascal, Olivia Wilde, Eva Victor, Will Arnett




















