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Marilia Passos sob o dorso do azul mais profundo

Neste romance de estreia de Marilia Passos, intitulado “Azul e Sombra” e lançado pela editora Oito e Meio, o narrador em terceira pessoa aparentemente isento de ego ou de escolhas narra a trajetória de Ricardo, advogado de uma firma de advocacia, mas no percurso da o talento de Marilia se ressalta. Não que eu vá elogiar seu refinamento ao narrar por uma ótica completa e eficaz masculina. Ela realmente o faz com um domínio não só narrativo, construindo também nesta narração “a cabeça” de seu personagem – um anti-herói decaído; cheio de sombras e uma ambiguidade surpreendente no desenho da sua caraterização.
maria passos oito e meio azul e sombraSe é pela narração que entramos na trama do livro; a escritora através de seus artefatos, ou melhor, artesanatos das palavras nos joga dentro do torvelinho de emoções pelo qual Ricardo transcorre desde que se envolve com Otto, um empresário manipulador que desja um terreno em Roraima para minerar e desarticular uma reserva indígena na região, até as idas de Ricardo até um boate de swing onde ele articula suas fricções do desejo.
Se é na classificações dos gêneros que a narração está montada, ressalto também a fuga de Marilia pelos clichês ao narrar no masculino. Sua segurança em articular as ações e demandas de Ricardo são tão próprias que não há no texto qualquer resquício de algum tipo de visão distorcida de gêneros.
Ricardo sofre um acidente de moto e fica com uma invalidez temporária. Neste intercurso, o narrador coloca Ricardo numa encruzilhada moral. Ele tem uma chance com Rafaela, sua sobrinha, filha de sua irmã, do qual ele não mantém boas relações. Enfraquecido como corpo ele se verá aos cuidados de Rafaela, e assim se humanizar ou azular suas sombras. Mas o que vemos aí é a grande sacada do livro de Marilia: de fazer a crítica ao certo comportamento masculino egoísta e narcisista quando o homem precisa se desnudar para sua companheira. Mas o homem se lacra numa armadura de afetos e sentimentos, fazendo de Ricardo um manipulador de situações e eventos.
O grande mérito do narrador é não antecipar uma impressão à primeira vista do personagem. Ela desce com ele até o inferno para que ele se torne humano demasiado humano em sua sombra. E já dizia um filosofo – o inferno são os outros.
Para mais informações/compra do livro, visite o site da Editora Oito e Meio.

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