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“Os Irregulares de Baker Street” – Netflix faz uma revisão curiosa de Sherlock Holmes

Mesmo com mais de 120 anos, o universo criado por Sir Arthur Conan Doyle com o seu maior personagem, o detetive Sherlock Holmes, ainda se torna referência para novas histórias. Esse universo é amplo e contém inúmeros personagens secundários que, devidamente adaptados, podem dar origem a novas ficções, filhas do cânone original.

A literatura, o cinema e a televisão tem apresentado boas iniciativas ao longo dos anos. A própria Netflix apostou em Enola Holmes, a irmã do detetive, criada por Nancy Springer. Recentemente, o streaming apresentou uma nova série, inspirada nos próprios escritos de Conan Doyle e, mais especificamente, por personagens que aparecem em dois romances e uma história:  Um Estudo em Vermelho (1887), O signo dos quatro (1890) e The Adventure of the Hunchback.

Estamos falando sobre Os irregulares de Baker Street (The Irregulars), cujas aventuras não são canônicas, mas criação dos roteiristas. Particularmente de Tom Bidwell, que apresenta uma gangue dickensiana de adolescentes que sobrevivem em um porão depois de passar por um internato

A série

Na Londres vitoriana, onde conheceremos a história dos cinco adolescentes que recebem a missão especial de lutar contra forças sobrenaturais: Bea (Thaddea Graham), Jessie (Darcy Shaw), Billy (Jojo Macari) e Spike (McKell David), que se unem a um jovem aristocráta, Leopold (Harrison Osterfield).

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Esses adolescentes são Os Irregulares, que têm sua origem nos textos de Doyle, numa presença menor; mas que aqui ganham destaque em uma série que também introduz vários elementos sobrenaturais, numa revisão curiosa para o cenário do famoso detetive.

Redesenhando o universo do grande detetive

O melhor de ‘Os irregulares‘ são seus jovens protagonistas, bem definidos como personagens desde o roteiro quanto na escolha do elenco.

Não são personagens fascinantes, mas há uma química que te faz ter certo carinho e curiosidade sobre as aventuras que irão trilhar, pelas ordens e ameaças de um Dr. Watson (interpretado por Royce Pierreson). Sim, Watson e não o detetive famoso Holmes (Henry Lloyd-Hughes), já que aqui seu papel é mais para um viciado em drogas com muito pouco a contribuir nas investigações que lhe são confiadas.

Doutor Watson em Os Irregulares de Baker Street

E é esse um dos motivos que faz Watson procurar esse grupo de moradores de rua, que acabam demonstrando que são capazes de enfrentar todos os tipos de casos, mesmo aqueles que envolvam o sobrenatural.

Assim, Os Irregulares de Baker Street oscila entre uma face pulp, imersa no fantástico e no terror, em que não faltam mortes marcantes e cenários sinistros. E uma fase teen, um lado juvenil, ingênui e meio atual; com implicações à amizade, às aventuras açucaradas amorosas. Uma mistura que não funciona tão bem, pois o sinistro é o mais eficaz e imaginativo, em especial quando envolve o sobrenatural. Enquanto os dois estilos se misturam, talvez com a intenção de tentar agradar a um grande público, a série perde um pouco mais de ousadia.

A proposta de expandir o universo de Sherlock Holmes pode ser meio forçada e até que teria funcionado sem a ligação com o detetive; o roteiro se preocupa em criar uma conexão com esses personagens, mas encontram-se desconectados. Watson poderia contratá-los como anônimo, sendo que poderia perder o gancho do público, mas a série não teria que suportar o peso de décadas e décadas de adaptações de Sherlock Holmes.

Por outro lado, os casos que são levantados pelos ‘Irregulares’ são legais, não espetaculares. A estrutura dos capítulos segue principalmente a lógica do ‘monstro da semana‘. O forte elemento sobrenatural serve para compensar o desenvolvimento lento da série. Cada um dos oito episódios são construídos com um cliffhanger que nos leva a ver o seguinte capítulo, satisfaz, mas falta uma melhor execução do suspense da trama.

Impulso a la Arquivo X

O criador, Tom Bidwell falou sobre a influência dos Arquivos X para escrever a série. E a seu favor, tece um enredo em mistérios episódicos com sutileza. À medida que os personagens lentamente descobrem mais sobre o que está concedendo às pessoas poderes paranormais, nós também descobrimos mais sobre a história de fundo que liga tudo – e como Holmes e Watson se encaixam em tudo.

Há uma descontrução do cânone de Doyle, a tendência geral da série é seguir a essência, conhecida desde os anos 1980, um grupo de jovens de enfrentar um poder sobrenatural que tenta entrar em nosso mundo.

Enfim, Os Irregulares de Baker Street propõe uma mudança marcante para o universo de Sherlock Holmes, mas a releitura teen se perde em meio à leitura gótica próxima ao terror.  É verdade que não há nada que seja entediante em particular, mas também não fascina. Uma Stranger Things vitoriana que diverte, vale dar uma conferida.

Nota: Bom – 3 de 5 estrelas

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