Dilili em Paris: passado e presente se fundem com charme em animação francesa | Filmes | Revista Ambrosia
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Dilili em Paris: passado e presente se fundem com charme em animação francesa

Um grupo de pessoas da tribo Kanak prepara uma refeição. Uma mulher fala com Dilili, uma menina, num idioma ininteligível. De repente, a tela se expande e percebemos, com horror, de que se trata de nativos sendo apresentados num zoológico para pessoas curiosas da França do início do século XX. Um jovem sobe numa árvore e, de cima dela, conversa com a menina Dilili. Novo choque: aquilo para a menina é um emprego, do qual ela tem horário marcado para sair. Já fora da jaula onde a encenação ocorria, Dilili conta a seu novo amigo, Orel, sobre como ela subiu em um navio em sua longínqua terra e dentro da embarcação se tornou protegida de uma condessa, que parece tê-la mais como bichinho de estimação do que como agregada. Dilili e Orel combinam de desbravar Paris no dia seguinte, e talvez também solucionar o sequestro de várias garotinhas. Esses são os cinco minutos iniciais – de muito estranhamento – de Dilili em Paris.

Agora que já passamos pelos primeiros percalços e a suspensão da descrença está completa, podemos nos divertir com a incrível aventura de Dilili e Orel. Eles conhecem Paris através do trabalho de entregador dele, e também têm a chance de conversar com grandes personalidades como Marie Curie, Louis Pasteur, a cantora de ópera Emma Calvé, os pintores Monet, Renoir, Toulouse-Lautrec, Degas, o palhaço e dançarino Chocolate, os escultores Rodin e Camille Claudel, a atriz Sarah Bernhardt e muitos, muitos outros.

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Na aventura, eles passam pelas escadarias, pela ópera e até mesmo pelos esgotos de Paris, por Montmartre, pelo Moulin Rouge e até por dentro da Torre Eiffel. Todos os cenários são extremamente reais, baseados em fotos tiradas ao longo de quatro anos, o que cria um efeito muito interessante no contraste com os personagens animados. Ao final, um voo num dirigível cria uma sequência deslumbrante. Alguns objetos e lugares foram inspirados nas obras de Júlio Verne e de Gaston Leroux, autor de “O Fantasma da Ópera”.

Dilili é uma garota bem falante, animada, perspicaz e precoce. É o tipo de personagem infantil que pode facilmente encantar como desagradar o espectador, caso ele não suporte criancinhas precoces no cinema – que é o meu caso. Felizmente, e de maneira realista, ela não resolve a questão sozinha, mas tem ajuda de mulheres fantásticas, inspiradoras e, o melhor de tudo, reais.

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Dilili em Paris acaba se tornando um paradoxo quando pensamos no público-alvo da animação. Ao mesmo tempo em que os traços e a história aparentemente simples – envolve apenas um passeio e a caça ao grupo Mestres do Mal – atraem as crianças mais novas, as figuras famosas mostradas e mencionadas só serão reconhecidas por um público bem mais velho, e de preferência muito interessado em arte. Além disso, o discurso sedutor dos Mestres do Mal – que soa bastante familiar, com objetivo de levar grandeza a uma nação e promessas de fortuna e prosperidade para indivíduos frustrados – pode não ser compreendido por crianças, mas os adultos o reconhecerão. Assim, fica claro que Dilili em Paris é feito para um programa familiar, em que as impressões dos mais velhos enriquecerão a experiência do filme para os mais jovens, e vice-versa.

Talvez você tenha um dèja vu ao ver Dilili em Paris: se os traços da animação lhe parecem familiares, é porque o diretor e roteirista Michel Ocelot já fez outra obra animada de sucesso: a trilogia Kirikou. Ocelot também foi responsável pela escolha das “locações”: são dele as fotos que servem de cenário para a trama.

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Dilili em Paris ganhou o César, maior prêmio cinematográfico da França, de Melhor Animação em 2019. Mas esta não é a única razão para conferir o filme. Além de ser uma reconstrução fiel e bem-humorada da Belle Époque parisiense e uma oportunidade para os pequenos aprenderem enquanto se divertem, o filme toca em um tema importante e muito, muito atual, que é a motivação por trás da organização Mestres do Mal. Embora o clímax deixe a desejar no quesito ação, Dilili em Paris, exatamente por isso, nos mostra que a chegada é importante, mas nada supera a alegria de fazer parte de uma grande jornada.

 

Cotação: Excelente (4 de 5 estrelas)

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