Ambrosia Críticas Festival de Berlim: "Chão"

Festival de Berlim: "Chão"

Por volta de 2014, alguns membros do MST contactaram a cineasta Camila Freitas, pois sabiam de um curta metragem que ela havia feito sobre o tema da retirada forçada de famílias, de terras na região de Brasília e queriam pedir permissão para exibi-lo em suas reuniões. Camila, entusiasmada, não só disse que sim, mas pediu pra ir para perto deles com uma câmera na mão. Assim começou o projeto por trás de “Chão”.
A equipe iniciou as gravações na ocupação Dom Tomás Balduíno, que reuniu cerca de 3.500 pessoas no município de Corumbá (GO), e em seguida, passou a filmar na ocupação Leonir Orbak, em Santa Helena de Goiás, onde 600 famílias acampam desde 2015 as terras da Usina Santa Helena.
O filme abre com uma bela cena na qual uma senhora e um homem, ambos integrantes do MST, enquanto compartilham o momento da ronda, traçam conjecturas em torno do que vão fazer quando finalmente receberem seu pedacinho de terra. Para isso, desenham seus sonhos num pedaço de madeira coberta por textura branca, ilustrando as divisórias de suas plantações e desejando que possam ser vizinhos para continuarem podendo se ajudar.

Ao longo das quase duas horas de filme, acompanhamos desde as primeiras reuniões realizadas nas cidades em torno das ações pretendidas pelo movimento, que buscam criar uma política de base – na qual explicam os seus intuitos e chamam os habitantes para participarem – passando pelos procedimentos de organização da ocupação, os trâmites legais e oficiais em torno da tentativa de redistribuição destas terras, as dificuldades dos líderes em manter o ânimo e a organicidade do coletivo; até o trabalho em conjunto para reativar a produtividade agrícola da área ocupada e o papel deturpador da grande mídia.
O filme é extremamente sensível em sua observação atenta e em sua proposta de fundir gestos espontâneos com pequenas construções ficcionais, permitindo espaço para que estas personagens estigmatizadas de nossa sociedade possam ter voz, rosto e nome e para que possam construir sua própria imagem e representação.
Em um momento tão crítico e delicado que estamos vivendo em nosso país, no qual há uma clara articulação para criminalizar movimentos sociais, caracterizando manifestantes como terroristas, incitando a reação violenta e armada de jagunços e facilitando a resposta unilateral e precipitada da polícia e das decisões judiciárias, “Chão” vem chamar nossa atenção e nos conscientizar sobre a urgência do envolvimento da coletividade para a proteção e manutenção de nossos direitos. Através desse belo filme, construído em união entre a equipe “de cinema” e os participantes do MST, Camila pretende quebrar preconceitos, desfazer mentiras trazidas por este maligno vírus das fake news, e nos mostrar personagens com quem podemos nos identificar, em sua alegria, em sua luta, em seus desejos e em suas fraquezas.

“Acredito fortemente que o cinema possa provocar empatia e identificação de outros indivíduos e setores da sociedade que desconhecem o MST ou o conhecem apenas através de visões estigmatizadas da mídia e discursos hegemônicos ligados ao agronegócio”, defende Camila.
Mais do que tentar contar uma história específica ou pontuar conquistas ou derrotas, o filme faz uma reflexão em torno da luta diária e da resistência cotidiana destas pessoas, que precisam estar sempre se reerguendo (gesto este ilustrado simbólica e visualmente no filme através da reconstrução da torre de observação que caiu durante um temporal) e se reorganizando pra driblar as injustiças de nosso sistema.
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