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Festival do Rio: "Manglehorn" traz Al Pacino em ótima forma dramatúrgica

“É melhor ser feliz do que ser triste”. Pode até ser, mas indubitavelmente é mais difícil. A felicidade demanda esforço para ser construída e um esforço ainda maior para ser mantida. Já a melancolia permite que apenas se debruce sobre ela e se esparrame com ou sem a companhia de sedativos como álcool, drogas lícitas ou ilícitas e qualquer coisa que proporcione um confortável torpor, como na música da banda Pink Floyd ‘Comfortably Numb’. A. J. Manglehorn, personagem título do novo filme de David Gordon Green (“Sua Alteza?” e “Segurando As Pontas”), parece saber bem disso. E abraça a melancolia sem dor na consciência.
“Manglehorn” (Idem, EUA/2014) mostra um exímio chaveiro texano da terceira idade, interpretado por Al Pacino que gosta de passar uma imagem de frio, lógico e durão, mas nutre até hoje um amor perdido há 40 anos e se consome por isso. Solitário e taciturno, conta apenas com a companhia da gata Fannie e tem uma difícil relação com o filho Jacob (Chris Messina), fruto de um casamento fracassado, que se tornou um yuppie que adora ostentar seu status social. De tão apegado à melancolia, até por encontrar nela sua zona de conforto, ele não consegue desenvolver traquejo para lidar com questões sentimentais. Descrente de relacionamentos interpessoais e envolto na obsessão de reaver sua paixão do passado, ele somente consegue nutrir afeto real pela gata e por sua neta. Mesmo quando a felicidade tenta bater em sua porta, trazida gentilmente pela simpática Dawn (Holly Hunter), ele nem ao menos percebe do que se trata. Afinal, os muitos anos de solidão e entrega a uma relação fantasma criaram sobre ele uma espécie de membrana impermeável.
Pacino se entrega de corpo e alma em uma interpretação primorosa, muito distante de trabalhos realizados no piloto automático que o ator tem realizado de vez em quando. Seu personagem é crível e apesar de ranheta, ganha a simpatia do espectador. A curiosidade é que as iniciais A.J. do nome do personagem são as mesmas do ator (nascido Alfredo James Pacino). O roteiro do estreante em longas Paul Logan ganha cores e movimento na correta direção de Green, dando suporte não só para o brilho de Pacino, mas para o bom funcionamento do elenco como um todo.
Jovem (tem apenas 39 anos), já mostra segurança em um tema que exige uma certa maturidade para sua condução. O filme propõe uma reflexão sobre até que ponto é válido criarmos mecanismos de defesa para não encararmos a difícil tarefa de construir a felicidade, por mais que no fim cheguemos à conclusão de que o esforço valeu muito à pena.
“Manglehorn” é um longa satisfatoriamente realizado, sem grandes pretensões ou ousadias narrativas e estéticas, mas que dialoga de forma correta com o minimalismo, sem economizar nas atuações e desenvolvimento do arco dramático do personagem central. Esse é o principal trunfo.

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