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O Processo não se trata de lados, mas sim de perspectivas

“- Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel [Temer]… É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional, sugere Sérgio Machado.
– Com o Supremo, com tudo, afirma Romero Jucá.
– Com tudo, aí parava tudo, anuncia Machado.”
Esse diálogo, divulgado em 2016, revela muito do que o Brasil se tornou nos anos seguintes. E também das bases que configuravam (e ainda configuram) a política nacional. Assim, não teria como Maria Augusta Ramos, documentarista tão aguerrida e por trás de verdadeiras teses sociológicas como os filmes Justiça, Futuro Junho e Juízo, não colocar sua câmera na engenhosidade que fora o impeachment de Dilma Rousseff, no ótimo O Processo.

O título é providencial e inspirado no clássico livro de Kafka que também mostra alguém sendo julgado sem recurso de defesa. O que a diretora faz é deixar sua câmera falar por si. Claro que o recorte é sua propriedade, mas o recorte hoje no país é mais complexo que necessariamente partidário. Apesar de ser sobre o processo de impedimento da presidenta, os verdadeiros protagonistas são os agentes que gravitaram sobre a questão de ambos os lados. Os senadores Gleisi Hoffman e Lindbergh Farias (ambos do PT) correm contra o tempo para desarticular o acordo, mesmo resignados diante da própria controvérsia construída em torna da presidenta ao longo dos mandatos.
O reconhecimento da derrota – pela senadora – é um dos pontos altos do filme, assim como um êxito da diretora em extrair humanidade do ideário que o jogo político nos mostra. A autora do pedido do impeachment, a advogada Janaína Paschoal, uma das poucas figuras de oposição que topou deixar a câmera astuta de Maria Augusta acompanha-la, fala por si na caricatura de seus atos e sua representação no circo armado.
Em mais de duas horas e meia (que nem sentimos passar) o filme tenta dar conta de tudo pelos principais atores dispostos no tabuleiro do poder. Por isso uma certa ironia fina paira por toda a projeção, especialmente nas cenas de Eduardo Cunha.

Com uma montagem virtuosa de Karen Akerman, Maria Augusta metaforiza o entorno do Congresso como a urgência do brasileiro comum, perpassando pelas manifestações pró e contra Dilma, e deixando para o espectador o juízo de valor sobre os fatos. Antes de tudo, é cinema, e ciente disso, a fotografia (de David Alves Mattos e Alan Schvarsberg) é caprichosa e reveladora.
Como a frase do Jucá (e seu grande acordo nacional em curso) lá no início do texto, os fatos e envolvidos no projeto contra Dilma acabaram por fomentar a narrativa da trama de maneira controversa. O discurso se impõe mais do que o panfleto. A indignação da qual saímos da sessão é inevitável. Os jogos de poder ainda pendem para os dois lados. Só que Maria quis que seu Processo mostrasse por si só, sem grandes interferências estéticas ou gráficas. Conseguiu. A reflexão que fica é nebulosa, mas o mais interessante é o quanto essa mesma reflexão é muito maior que o lado que você vai estar nisso tudo.
Filme: O Processo
Direção: Maria Augusta Ramos
Elenco: Dilma Rousseff, Gleisi Hoffmann, Luiz Inácio Lula da Silva
Gênero: Documentário
País: Brasil
Ano de produção: 2018
Distribuidora: Vitrine Filmes
Duração: 2h 17min
Classificação: livre

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