Naná DeLuca tem família toda em Santos, onde passou a maior parte da infância e da adolescência. Formou-se em Letras pela Universidade de São Paulo e é mestre em Estudos Literários, com enfoque nos estudos feministas e de gênero. Defendeu, em 2017, sua dissertação de mestrado sobre a obra da escritora francesa Violette Leduc. Participou da “Antologia Trans” (org. por Invisíveis Produções) e publica resenhas, ensaios e crônicas em sua plataforma Medium. Fizemos quatro perguntas à escritora. Confira abaixo:

1-)  Fiquei fascinado com sua escrita, com uma percepção do que uma narrativa pode ser tão dupla (em suas camadas) de fabulação em que o leitor acaba lendo dois ou mais textos, um na superfície e outro numa linda profundidade. Como foi o uso do mar para fabular sua história? 

Naná de Luca: Por si só, o mar faz lembrar que o mundo é grande. É banal dizer isso, mas o mar não só diz, mostra. Está aí sua primeira razão de ser na história: a própria ideia de mar cria a vastidão; grandeza e profundidades. A palavra “mundo” é certamente uma das que mais aparece no texto. E esse emprego não foi ingênuo. Eu pensei muito, ao longo da escrita, nas possibilidades do globo. Em primeiro plano, porque o mestrado em Letras me fez topar com a discussão e eu me interessei demais (fiz um curso fabuloso chamado História da modelagem do mundo pelo romance).

Percebi que para o romance europeu essa modelagem terminou por ser a marcação da diferença: aqui não é. Lá não é aqui. E agora, no contemporâneo, a globalização entra na literatura na forma das narrativas transnacionais e identidades plurais, da intertextualidade (do dialógico), das diversidades linguísticas e culturais e seus múltiplos encontros. O mar, enquanto espaço literário, acolhe a tudo isso, ao mesmo tempo que nega esta oposição entre um aqui que é necessariamente meu e um lá que é necessariamente do outro. Onde estão os tubarões no mundo? Em toda parte. E que lugar é esse? Nenhum. É mar.

Em outro plano, o mar é também entidade mágica, viva. Tem poderes, palavras. Sabe das coisas e permite que a voz que narra conheça e experimente algumas delas. O mar vai conduzindo as personagens em sua trajetória de formação e lhes dá aquilo que precisam, quando precisam. As camadas de fabulação surgem destas duas concepções para o mar, que busquei fundir ao longo da narrativa.

 

2-)  Você utiliza um animal considerado agressivo que é praticamente um predador dos mares para falar das crianças que ao adotarem o mar como habitat se transformam em um deles. Por que esta escolha? 

Naná: Há, de fato, esse lugar comum para o tubarão. É um predador agressivo, bruto, monstruoso (aquele que dá medo). A escolha está, justamente, nessa alquimia transformadora que a literatura permite (“no papel cabe tudo”, uma vez me disseram e eu nunca esqueci), pois tem esse poder de alterar a percepção, de dissolver certos símbolos enrijecidos, de investigar o que se toma como caso encerrado. Onde o lugar comum vê o agressivo, a narrativa vê o forte, o resistente. Onde o lugar comum vê o monstro, a narrativa vê a beleza daquele que resiste. Do medo, vem o amor; do bruto, o leve, o infantil, e assim por diante. Trata-se de olhar de novo, olhar diferente o tubarão e lhe dar uma outra história, conceder a ele outra narrativa que não a do puro instinto feroz e arcaico. Celebrar o fato de que recusa a extinção, apesar de tudo. Enquanto metáfora para a existência dissidente, não me parece haver representante mais adequado.

3-) Sua linguagem acompanha toda a sua fabulação ao falar de aceitação, alteridade, autoimagem , ela é tão matizada em nuances e desvelamentos quanto o enredo que você escreveu. Como foi trabalhar esta linguagem no romance?

Naná: Foram cinco anos para encontrar, criar e trabalhar esta linguagem, em todas as suas particularidades.  De fato, a narrativa teve duas versões anteriores. Até que joguei tudo fora em junho de 2015 e comecei a reescrever, para só terminar em outubro de 2016. A única coisa que se preservou foi o título.

Escrevi o primeiro capítulo, tal como publicado, de uma só vez e, ao terminar, eu já sabia que finalmente tinha encontrado a voz certa para narrar “O Sexo dos Tubarões”. Havia um tom finalmente, um tom que eu busquei muito. Para essa linguagem, era fundamental que todas as vozes e personagens não tivessem marcação de gênero; e aqui morava o maior desafio linguístico, imposto por nossa própria língua. Enunciados como “Estava cansada” ou “Estava morto” não eram uma opção. Não se tratava de falar sobre meninas ou meninos, sobre mulheres ou homens, mas sobre gentes diversas, personificadas nas muitas faces do tubarão. Pessoas que, de alguma maneira, tiveram de buscar quem são no mundo em pontos fora da curva, em caminhos imprevistos pelos padrões e seus códigos. Gendrar seria limitar e, também, excluir. Eu não queria isso.

Rejeitei categoricamente o masculino neutro universal, mas tampouco queria apenas o feminino. Eu não queria nenhum dos dois, ao mesmo tempo que queria todas as possibilidades entre um e outro, uma linguagem na qual todos coubessem. “O Sexo dos Tubarões” é uma fábula de formação que transita entre aprender a escutar e viver o primeiro amor, aprender a falar e descobrir o próprio corpo, da exclusão e da violência até o reconhecimento da comunidade, do pertencimento. Diante disso tudo, o “eu” já era limitação suficiente.

Enquanto escrevia, pensava muito no que disse Édouard Glissant, filósofo da Martinica: “A poética forçada surge da consciência desta oposição entre uma língua da qual se serve e uma linguagem da qual se precisa”. Eu precisava (literária e pessoalmente) dessa linguagem sem gênero, desse tensionamento do dizer que se deforma enunciados simples e gera estranhamentos, também cria novas formas de falar, mais abertas. Uma linguagem imprevista para trajetórias imprevistas. Então, esta restrição criativa, não marcar o gênero, acarretou em outros recursos poéticos, por opção mais musicais. Refrãos, aliterações, assonâncias, muitas vezes construídos em diálogo com outros textos. Houve uma meditação a cada escolha, mas também um certo brincar com as palavras.

4-) A relação de prosa e poesia é muito mal vista por algumas pessoas. Muita gente antagoniza um estilo poético em textos narrativos. Como você vê esta questão?  

Naná: Enquanto escrevia, eu cultivei uma fantasia que vem a calhar para responder. Li uma entrevista da Adriana Calcanhotto em que ela dizia não ler mais prosa, pois prefere poemas e a vida é curta (algo assim). Ficava imaginando publicar o texto e enviar para ela com a seguinte dedicatória: “Para Adriana, na esperança de que se reconcilie com a prosa”. Talvez essa fantasia tenha sido o máximo de atenção que dei para esse antagonismo e traduz uma certa vontade de negá-lo ou, pelo menos, apaziguá-lo.

Eu não acho que haja novidade em mesclar poesia e prosa e não acredito em uma regra que tire da narrativa a sua potência poética. A poesia pode sempre existir onde existe a palavra. Se vamos fazê-la em versos ou em frases, em estrofes ou em parágrafos, para mim, é altamente secundário. Eu já ouvi poesia em perguntas espontâneas que alunos me fizeram em sala de aula. E eu a leio em Angélica Freitas e Luís Gama e Rimbaud. E quantas vezes eu não a encontrei nos romances de Machado de Assis e nos contos de Borges, no bloco de carnaval, em artigos de crítica literária, no teatro. No bar, nos filmes, nas músicas, nos posts em redes sociais.

Nas crônicas (como na terra da crônica a gente pode privar a narrativa de poesia e a poesia de narrativa? Tem poesia pra todo lado). Se há palavra, há potência poética. Exigir uma forma assim ou assada é uma redução generalizada daquilo que é tão tranquilamente infinito. Então, embora como dizer seja uma escolha sempre tão importante quanto o que dizer, prefiro não fixar regras combinatórias. Vai de quem diz, quando diz, porque diz.

Fotos: Beliza Buzollo

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