Antonio tabucchi2
AcervoAmbrosiaLiteratura

“Requiem, uma alucinação”, de Antonio Tabucchi, apaga as fronteiras entre a vida e a experimentação da morte

Entre a ficção e o real também estamos mortos e acostumados. Existe uma suspensão da ordem do dia, das concreções, das fisicalidades com os objetos cotidianos, os corpos anônimos ou afetivos. Entramos numa ordem simbólica, num espaço fantasmagórico onde o autor vai dando através das palavras, uma arquitetura magmática. Mas o personagem do livro “Requiem, uma alucinação”, Cosac Naify, do escritor italiano, Antonio Tabucchi, num dia de final de julho, na parte de Lisboa, num calor dos transtornos, há de ver alguns deveres do seu tempo memorialístico que ainda estão “vivos” numa zona que poderia ser de uma espera por satisfações do narrador para com seus entes.

Ele vai desde do dia cedo, encontrando estas pessoas-devires que irão lhe reiterando a ordem do dia real e concreto, até os que entram e que são escolhidos por ele como entidades-que-precisam-de-perguntas-respostas. Como num processo terapêutico onde o ouvinte ouve através de sua própria motricidade verbal, o narrador irá questionar do amigo que teve uma relação com a mesma Isabel, e ambos poderiam ter tido um filho com ela. O lado dos mortos é mais vivo e bufão do que os coadjuvantes vivos.

Haveria na redefinição de uma segunda chance de restituição do erro uma nova procrastinação do morto? O narrador vai seguindo por uma parte do Alentejo, indo à restaurantes, museus, e vendo referências de sabores aculturados, de estilos copiados, como se a vida se dobrasse em camadas de interpretações, em jogos dúbios da memória, quando uma segunda vez é necessária para confirmá-la pois o terreno da ficção é por demais lacunar.

Se você visse leitor, fantasmas, a passear pelos seus arre – dores. Se a vida fosse uma arte do revisionismo, ou de artefatos com suas criaturas escrevinhadoras que você mais ama. Tente pensar o que seria um encontro com o Pessoa, (o Fernando) num restaurante um pouco antes da meia noite. Alucinação, sua, porque? Ele o pessoa voltou pelos seus poemas lidos, construídos entre forte pontadas de realidades e estupores alucinatórios, ele manejou a linguagem tão bem, para você leitor, estar vivo.

Deixe um comentário

Sugeridos
Cópia de MGL6820
LançamentosLiteratura

Hermes Coêlho revisita “Nu” em edição ampliada

Livro que inaugurou a Trilogia do Trauma ganha nova edição pela Patuá...

Carolina Chalita em Eu matei Sherazade, confissões de uma árabe em fúria - Crédito fotográfico Juliana Chalita
AgendaLiteraturaTeatro

“Eu matei Sherazade, confissões de uma árabe em fúria” chega ao CCPJ

Indicada ao Prêmio APTR, Carolina Chalita faz tour da peça que mergulha...

Os livros marcantes de Zuenir Ventura
ListasLiteratura

Os livros marcantes de Zuenir Ventura

Ao longo de sua trajetória como jornalista e escritor, Zuenir Ventura (1931–2026)...

Zuenir Ventura
AstrosLiteraturaNotícias

Memória brasileira e a trajetória de Zuenir Ventura

Existe um tipo raro de jornalista que consegue transformar a pressa do...

HN12428
Literatura

E se um romance fosse construído como um jogo?

E se conceitos usados para criar jogos pudessem ser aplicados à construção...

PHOTO 2026 08 05 19 48 55 (1) (1)
AutoralLiteratura

Trechos de “É Vida Que Segue!” de Daniela Yuri Uchino 

Daniela Yuri Uchino é paulistana, graduada, mestra e doutora em Letras pela...

Ivy
AgendaLiteratura

Ivy Menon lança “Ratos e estrelas habitam o mesmo universo” na Bienal do Livro de São Paulo

Romance de autora de 68 anos, ex-boia-fria, advogada, jornalista e teóloga, aborda...

Capa não volte sem ele
Literatura

Cinco autores nordestinos

A literatura nordestina contemporânea não cabe em uma única chave temática. Ao...

PHOTO 2026 08 05 19 48 55 (1)
LançamentosLiteratura

Além com filas, terapia e agência de empregos para almas em “É Vida Que Segue!”

Lançamento na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, novo livro da...

IMG
LançamentosLiteratura

Escritor Douglas Robberts lança “Meninos avessos, duendes travessos”

Nova obra de Douglas Robberts apresenta o encontro inesperado entre dois meninos...

Christian araujo autor
LançamentosLiteratura

Christian Araújo leva personagens trans a uma Belém distópica em Não Sou um Diário

Escritor e cineasta paraense mistura poesia, ficção científica e cultura pop em...