Literatura

Resgatando gregos e troianos em O Coração dos Heróis

“Respeita os deuses, Aquiles, e tem piedade de mim, em lembrança de teu pai: sou ainda mais lastimável: pois tive a coragem de fazer o que, sobre a terra, nenhum humano fez ainda, levar à boca a mão do matador de meu filho.” Súplica do rei Príamo de Tróia ao “herói” Aquiles pelo corpo de Heitor

A história é bem conhecida: fim da guerra de Tróia, Aquiles, furioso pela morte de Pátroclo por Heitor, filho do rei da cidade sitiada, o mata e profana seu cadáver, arrastando-o perante as muralhas de Tróia por onze dias. O rei Príamo despindo de seu orgulho e grandeza decide resgatar o corpo do filho e se dirige ao território inimigo para suplicar os restos mortais de Heitor. Nesse fragmento da história clássica do épico Ilíada de Homero, David Malouf conta sua versão em O Coração dos Heróis (Ranson, tradução de Paulo Polzonoff, 256 páginas,  Leya), da jornada de Príamo ao acampamento grego.

Contada e recontada pelos séculos a Guerra de Tróia inspirou vários “contadores de estórias”, na literatura, no teatro, na pintura, no cinema, nos quadrinhos, proporcionando um cenário intemporal de diversos sentimentos. Após dez anos sem publicar, o romancista e poeta australiano, um dos mais prestigiados escritores contemporâneos, recupera a comovente cena da Ilíada, fazendo um estudo de alguns de seus principais personagens.

A história se centra em três personagens Príamo, Aquiles e o carroceiro do rei, o humilde Somax. O australiano investiga as personalidades de cada um, por trás dos acontecimentos conhecidos da Ilíada, relatando o ponto de vista do trio de protagonistas. A abordagem no angustiado soberano deixa claro o quão suas ações foram revolucionárias para a cultura da época. O rei aprende a ver a vida de uma perspectiva diferente, longe do palácio, com um mero carroceiro, angustiado com a dor da perda e com o sufoco da humilhação no pensamento. Somax, personagem criado pelo autor, partilha a dor do soberano, pois enquanto Príamo com seus inúmeros filhos, muitos mortos naquela guerra caminhava transtornado pelo luto, o velho carroceiro com sete filhos também perdidos no fatídico conflito, trata a vida com muito mais humor. Mas é comovente a interação entre esses dois homens, tão diferentes.

Malouf escreve como um poeta, iniciando com a grandiosidade épica dos clássicos, enquanto trilha um caminho que Ezra Pound e T.S.Eliot conseguiram moldar em seus versos para mostrar a simplicidade dos sentimentos humanos. Por fim, é uma história bem estruturada e cuidadosamente polida em retratar dois curtos dias de viagem, como fossem os dez anos que Ulisses fez em sua jornada para casa. Para comparar, enquanto a passagem de Homero leva 150 linhas mais ou menos para descrever o ocorrido, aqui Malouf narra em cinqüenta páginas.

O autor lembra no posfácio quando pela primeira vez leu o épico grego, o ano era 1943, vivia em Brisbane, entre edifícios e sacos de areia e assistia o movimento das tropas americanas para o norte em direção às batalhas do Pacifico. Mas não é a primeira vez que o autor visita os clássicos, nos anos 1970, quando iniciava sua carreira escrevera An imaginary life (1978), narrando a vida do poeta romano Ovídio.

O Coração dos Heróis é um livro sobre homens e sua escolha, que Malouf recriou como Homero fez com o destino de seus heróis gregos e troianos, mas com um lado moderno e realmente humano oferecido para seus leitores, sem a influência dos ditos deuses. De leitura rápida, a narrativa cativa pela linguagem reflexiva, com suas mensagens e símbolos, e ilustra um olhar que consubstancia as quatro palavras que resumem esse surpreendente e comovente romance: perda, amor, perdão e redenção.

Um belo resgate desse momento clássico da literatura mundial.

[xrr rating=4,5/5]

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