Alexandre Marzullo faz um mergulho profundo no seu EP de estreia, “Primeiro Oceano” | Música | Revista Ambrosia
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Alexandre Marzullo faz um mergulho profundo no seu EP de estreia, “Primeiro Oceano”

Multi-artista, o carioca Alexandre Marzullo começa sua jornada musical com um caminho poético guiado pelo violão no EP “Primeiro Oceano”. O registro, quase completamente instrumental, marca uma jornada de descoberta artística. O álbum já está disponível nas principais plataformas de streaming através do selo Dubas.

O trabalho foi pensado para representar o início de uma travessia pessoal, de um desbravamento de horizontes – um salto, ou mergulho, para o “primeiro oceano”: o desconhecido. A temática da busca guiou todo o desenvolvimento do EP, motivado por uma vontade de libertação e um sentido de poesia. Sem restrições de rótulos ou gêneros, Marzullo constrói uma intrínseca narrativa – mesmo que, das cinco faixas, quatro sejam instrumentais. O compositor busca nas raízes da história brasileira um caminho para compreender o que nos trouxe até aqui.

“A poética do mar e seus mistérios, nesse sentido, caiu como uma luva, pois não só eu tenho uma forte ligação com o mar – meu próprio nome o sugere – como o mar é parte de nossa herança cultural e civilizatória mais imediata. Desde as narrativas lusitanas do descobrimento do Brasil até a chegada dos navios escravocratas vindos da África, de certa forma o Brasil só é o Brasil por causa do mar. ‘Primeiro Oceano’ trata da fundação de uma identidade também, portanto”, resume Marzullo.

A busca por personalidade própria faz o artista atracar em portos desconhecidos – o outro. O “Primeiro Mergulho” se fundamenta também no inefável e incompreensível. Ao entender o mar como fonte de vida – onde nascem de deuses e deusas – e também de morte, o trabalho se apropria das contradições para representar aquilo que nos escapa, inescrutável. Nesse mergulho interno, uma identidade se funda, se aprofunda, se descobre, se revoluciona.

Ideias tão subjetivas ganham forma no violão, baixo e teclado de Alexandre, que se desdobra em múltiplos instrumentos. Entre uma faixa e outra, ele costura uma narrativa guiada meramente por suas dimensões sonoras e que desemboca na sensação de liberdade e suspensão, de olhar para si e de contemplar o estranho, o incógnito. A imersão começa na faixa-título, passa pelo descobrimento do outro em “Sul”, volta a uma crise interna em “Elegia para Copacabana” (a única com letra no EP), levando à superação em “Ao Pescador” e, por fim, à libertação em “Opa, Bom Dia”.

Assista ao clipe “Primeiro Oceano”:

“Rejeitei tudo que fosse facilmente reconhecível como uma influência musical direta, tudo que remetesse ao ontem. A única concessão que fiz foram os valores estéticos que elegi para me nortear: beleza e delicadeza. Desenvolvi uma forma de tocar o violão, sobrepondo o vocabulário folk com o pensamento harmônico-cancionista da MPB. Em cima disso, fiz variadas experiências com as faixas de áudio gravadas, distorcendo, prolongando e reverberando ao extremo as faixas de violão. Como o violão folk descende do violão erudito europeu, e as harmonias da MPB são heranças bossanovistas, ambas tradições prenhes de delicadeza, cheguei numa síntese que pode remeter tanto a um lado quanto a outro, e, no entanto, se mantém por si mesma, graças a essas experimentações de estúdio”, explica Marzullo.

O norte dessa bússola contemplativa foram inspirações do jazz e música ambiente japoneses, em especial álbuns oitentistas de nomes como Haruomi Hosono, Hiroshi Yoshimura e Yasuagi Shimizu. Condensar todas essas influências foi um longo processo de maturação que fez prolongar a gravação de “Primeiro Oceano”, um trabalho minucioso que se estendeu de setembro de 2017 a janeiro de 2019. Das oito faixas trabalhadas, cinco foram escolhidas para integrar o EP. 

O primeiro single foi “Opa, Bom Dia”, lançado em março com um clipe e que foi a porta de entrada do artista ao selo Dubas. Dando forma à libertação com que “Primeiro Oceano” se despede, o vídeo incorpora o aspecto solar da composição e leva Marzullo para uma floresta, onde, em meio às árvores mudas, pode ser ele mesmo – tocando violão, bebendo café, lendo, dançando. “A floresta, nesse sentido, é a contraparte do oceano, ressaltando a vida, o verde, a fertilidade da terra: o raiar do novo dia, que pode chegar meio sem jeito (como eu, dançando), mas chega. Logicamente, aproveitei para imitar o Elvis Presley, meu ídolo de infância. Afinal, nem tudo precisa ser libertação, e isso também é libertação”, reflete o artista.

Assista a “Opa, Bom Dia”:

Músico autodidata, Marzullo tem formação em pintura e um curso inacabado de Artes Visuais pela UERJ. Em 2018, conheceu Ronaldo Bastos, iniciando uma forte relação profissional com o aclamado compositor, trabalhando como seu assistente. Atualmente, cursa um mestrado em Letras, na área de Ciência da Literatura, na UFRJ. Sua pesquisa aborda as letras das canções de amor compostas em contextos repressivos, tratando da lírica do amor como o gesto anti-autoritário, e portanto, libertário por excelência.

Em paralelo a esse trabalho conceitual, a partir de 2016 ele colocou em prática a vontade de se dedicar profissionalmente à música. Marzullo idealizou um evento mensal chamado Conversa Acústica, que reunia apresentações musicais e poéticas, seguidas de bate-papos mediados sobre processo criativo entre artistas e público. Trazendo uma reflexão sobre o fazer artístico, o Conversa Acústica serviu como palco para a evolução do próprio Alexandre que, além de outras apresentações pelos palcos do Rio, depois trabalhou em trilhas de peças e curtas universitários.

Reunindo essa experiência e influências que foram de música ambiente até Villa-Lobos, passando pelas harmonias bossanovistas e o violão folk, Marzullo entrou em estúdio para trabalhar em “Primeiro Oceano” no ano seguinte. Após a gravação dos violões, foram empregadas diversas técnicas de estúdio e experimentações sonoras, buscando criar uma atmosfera e textura próprias e únicas para cada música.

O projeto foi gravado no estúdio Espaço Ipiranga, no Rio de Janeiro. A produção musical foi do próprio Alexandre Marzullo, com supervisão, mixagem e masterização de Leandro Dias. Alexandre agora entrará em turnê para divulgar o projeto, que chegou ao conceituado selo através de Ronaldo Bastos. 

Estabelecida desde 1994, a Dubas tem em seu catálogo mais de 150 títulos indo de trabalhos de artistas novos que apontam para caminhos inexplorados até discos clássicos da música popular brasileira que haviam estado fora de catálogo. “Primeiro Oceano” está disponível em todas as plataformas de música digital com o atestado de qualidade do selo.

Ouça “Primeiro Oceano”:

Ficha técnica:

 

1 – Primeiro Oceano

Violão e FX: Alexandre Marzullo.

 

2 – Sul

Violões e FX: Alexandre Marzullo.

 

3 – Elegia para Copacabana

Voz, violão, baixo, teclados e FX: Alexandre Marzullo.

 

4 – Ao Pescador

Violões, baixo e FX: Alexandre Marzullo.

 

5 – Opa, Bom Dia

Violão e FX: Alexandre Marzullo.

 

Mixagem e masterização: Alexandre Marzullo e Leandro Dias, do estúdio Espaço Ipiranga.

Produzido por Alexandre Marzullo.

Arte de capa: Alexandre Marzullo, sobre foto de Davi Bernard.

Alexandre Marzullo faz um mergulho profundo no seu EP de estreia, “Primeiro Oceano” | Música | Revista Ambrosia

Faixa-a-faixa, por Alexandre Marzullo

 

1 – Primeiro Oceano – A faixa-título do EP é uma ode atmosférica ao misterioso chamado além-mar. O belo e delicado arranjo de Primeiro Oceano foi inteiramente construído a partir de sua faixa principal de violão, que teve seus sons e timbres reprocessados. A evocação marinha, com seu clima esparso e reflexivo, dá o tom para o restante do EP, consagrando o mergulho conjunto entre artista e ouvinte em um oceano inédito de sons e dimensões poéticas.

 

2 – Sul – Concebida originalmente como uma canção de amor, Sul possui três movimentos distintos: o primeiro, frágil e romântico, evoca algo como a memória de um idílio de amor; já o segundo, lento e intenso, nos remete a uma enorme ânsia, como a consciência de uma perda. E finalmente, o terceiro movimento retoma o primeiro, porém com uma textura completamente diferente, ressaltando a sensação de partida. Assim como a faixa anterior, sua textura e arranjo foram provenientes das duas faixas principais de violão, reprocessadas. 

 

3 – Elegia para Copacabana – A única faixa com letra e voz no EP, Elegia para Copacabana narra um encontro furtivo, erótico, tendo a praia e a noite de Copacabana como panos de fundo. ‘Elegia’ evoca uma ânsia por libertação (amanhã, tu e eu/seremos outro dia), a partir da consciência de uma perda (a frase burilada/está perdida). Além de voz e violão, também utilizei baixo e teclados; a orquestração, contudo, foi feita a partir da própria faixa de violão, isolando suas notas e reprocessando seus sons. 

 

4 – Ao Pescador – Após as turbulências de ‘Sul’ e ‘Elegia’, singramos placidamente em alto mar com Ao Pescador. O clima é outro: são sons de harmonia, de conciliação consigo mesmo. Com gaivotas ao fundo, os múltiplos violões dedilhados (em sua maioria, criados a partir de uma faixa única de violão, reprocessada e reeditada) criam uma textura atmosférica, emulando uma verdadeira jornada espiritual, uma vontade de alvorecer. Toco os violões e baixo em Ao Pescador.

 

5 – Opa, Bom Dia – A última faixa do EP, Opa, Bom Dia é também a mais solar. Composta para violão solo, sua reafirmação melódica sobre tons maiores sugere uma alegria inconteste, uma presença de vida nos mais ínfimos detalhes. Por isso, a saudação no título, reforçando o clima simpático. É, a um só tempo, o destino final do mergulho de ‘Primeiro Oceano’ e o novo ponto de partida, para um outro oceano, para uma outra aventura. Para um outro (re)descobrimento.

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