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Crítica: Confessional, Coldplay faz de "Ghost Stories" sua obra de legitimidade

No fundo o Coldplay sempre foi uma banda passional. Aliás, ele emergiu de sua própria passionalidade, um tanto melancólica, no arrasador primeiro CD “Parachutes” (1999) e sedimentado no disco seguinte, o fenômeno “A Rush of Blood The Head” (2001). Chris Martin e companhia se entusiasmaram com a abrangência de sua música a partir dali e fizeram de um estado de espírito de outrora, um estado de graça, com álbuns mais solares, moldados (eficientemente) para grandes estádios.
A melancolia, até pela voz personalística do vocalista, ainda se fazia presente, mas era ponta de lança de hits catárticos indo da obra-prima Clocks até a escancaradamente radiofônica Viva La Vida, passando pela esperteza harmônica de Paradise, esse um dos sintomas dessa fase no último CD do grupo, o subestimado (mas bem vendido) “Mylo Xyloto” (2011). Mas, no fundo o Coldplay sempre foi uma banda passional.
Já seu novo trabalho aponta para uma outra direção, até pelo título, Ghost Stories. Um direção de volta ao início? Talvez. É sabido que o vocalista passou por uma recente separação de um casamento de onze anos com a atriz norte-americana Gwyneth Paltrow e se prestarmos atenção a cada uma das canções desse esbelto novo CD, fica bem claro que o conjunto, condizente com seu título, emoldura um disco conceitual e conflituoso de um indivíduo dentro da resignação de um fim de relacionamento.

Ghost-Stories-by-Coldplay

A lindíssima Always In My Head abre o álbum com Chris entoando quase que num lamento “O meu coração continua quieto. E as memórias não vão embora”. Em Ink ele canta que “Tudo o que sei, é que estou perdido sempre que você vai…”. Em True Love (de sonoridade bem parecida com as buscadas no disco “A Rush…”) chega a dizer “Diga que você me ama. Se não me ama, minta pra mim”.
Magic, a música escolhida para puxar o lançamento, é uma hábil balada até bem otimista diante das demais, e que comprova o talento do grupo em evocar sentimentalismo, sem necessariamente se chafurdar nisso. O único lapso do “Coldplay das antigas” é a parceria do grupo com o badalado DJ Avicii em A Sky Full Of Stars, que tem a eficiência e a pretensão de dar um respiro dançante em meio a tanta melancolia sonora. Esse caminho buscado pelo grupo pode ser visto como muito arriscado pela proporção de popularidade que o Coldplay estabeleceu com o mundo dos anos 2000 para cá.
Ghost Stories é um álbum confessional, e isso acaba por legitimar essa ambição. Ao se deixar levar pelo empenho emocional de suas músicas, em especial as duas mais completas nesse sentido, Midnight e a arrepiante Oceans, entende-se que, no fundo, o Coldplay sempre foi uma banda passional. E ao fazer de sua passionalidade um reflexo de sua pessoalidade, retoma a capacidade de transcender. Belo trabalho!

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Ativista

Publicado por Renan de Andrade

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