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O magnetismo incendiário de Johnny Hooker

Dentre as chamadas “músicas de gênero” (todas não são?), o brega segue desde que o mundo é mundo, na linha tênue entre a potencialidade kitsh e a legitimidade passional. É quase como se o gênero fosse maior que seu juízo de valor. Se pensarmos que Lupicínio Rodrigues foi um expoente dos mais consistentes desse tipo de embalo musical, já consideramos que a alcunha “brega” não tem nada de pejorativo.

E quando surge um cantor que renova esse torpor de passionalidade, em letras objetivas e dramáticas, num contexto tão descolado do que tem sido feito hoje na chamada “nova geração da MPB”, é óbvio que teria as atenções monopolizadas.

Johnny Hooker, esse jovem cantor de uma Recife já tão belamente “desromantizada” pelo ótimo cinema da região, dá a cara a bater no ótimo álbum de estreia, Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!, em que exprime um clamor desesperado pelo amor negado, em letras viscerais como “Acha que a sua indiferença vai acabar comigo? Eu sobrevivo, eu sobrevivo…” (Alma Sebosa), juntando sentimentos de fossa, redenção, amor, ódio, num conjunto colérico de canções que justificam a exclamação definitiva que nomeia o CD.

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“Volta”, “Amor Marginal” (que conclama: “respirando mágoas de uma outra dor do nosso caso imoral, desse amor marginal…”), “Você Ainda Pensa?” (do maravilhoso verso: “Você ainda pensa em mim quando você fode com ele…“) e “Desbunde Geral” ajudam a sintetizar o que representa o trabalho do jovem, que acabou de ganhar o Prêmio da Música Brasileira 2015 de Melhor Cantor de Música Popular, láurea mais que merecida.

E não pense que Hooker se resume a uma aparente histeria emocional. Basta ouvir a dilacerante “Segunda Chance”, onde demonstra versatilidade ao interpretar com particular intimismo uma letra que desbrava sua própria coerência. Um momento lindo diante de toda a beleza que já nos apresenta.

Não é fácil se representar num primeiro trabalho, mas Johnny Hooker é puro som, fúria e verdade. Algo que a nossa geração ainda confunde com plasticidade virtual. Então, que seja bem vindo, com todo o seu hipnotismo, hedonismo e sincretismo.

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