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Agente Secreto X-9

Após uma década de Lei Seca, os Estados Unidos viviam os anos 1930, uma agitada e violenta década, a proibição ao álcool propiciou ao crime organizado um enriquecimento exorbitante. A corrupção corria solta, os gângsteres passaram a dominar os milionários negócios com bebidas, corrompendo autoridades policiais e judiciárias, elegendo políticos e assassinando qualquer um que atrapalhasse seu comércio. Foi nesse período que o público norte-americano se tornou mais receptivo às histórias em quadrinhos de combatentes do crime, entre os  gêneros havia o que ficaria conhecido como hard boiled detective, com personagens de detetives durões, heróis sem poderes quaisquer, mas praticamente invencíveis na sua luta contra o crime organizado.

O gênero teve seu início nas comics da década de 1920, mas foram nos anos 30 que se espalharam, em especial, nas tiras diárias de jornais. Dick Tracy (1931) abriu o filão, e seguiram Dan Dunn, Red Barry, entre outros. Era uma época onde a criatividade caminhava junto com a ingenuidade, e não havia diferenças para se definir o era certo ou errado.

Agentes do governo eram também personagens bastante populares no período. Um bom exemplo é o Agente Secreto X-9, que recentemente ganhou um caprichado volume pela Devir Livraria, que analisaremos a seguir. A daily strip originalmente foi lançada pelo King Features Syndicate para competir com a crescente popularidade do Dick Tracy, entretanto a companhia queria algo mais que um detetive particular, ele também seria um agente secreto. Logo, precisavam de um grande nome para escrevê-lo. E Dashiell Hammett, já com o sucesso O Falcão Maltês como carro-chefe de criação, e pelos trabalhos na revista Black Mask, estava à procura de novos espaços, assumiu a empreitada. Para os desenhos, resolveram contratar um jovem virtuoso de nome Alex Raymond, após um concurso que a companhia efetuou para os desenhos da nova série, mas antes de seu Flash Gordon, que o lançaria ao patamar de gênio. E no dia 22 de janeiro de 1934, era publicado o misterioso X-9, no Evening Journal, num rotundo êxito. As tiras do X-9, pelo tamanho, se diferenciam claramente das demais e ainda promovia um concurso semanal entre seus leitores, propondo enigmas policiais.

Infelizmente, um conflito foi gerado no conceito do personagem. X-9 era um tão secreto, que mantinha seu nome em segredo, como nem mesmo revelava qual agência fazia parte. E mais, ele fazia todo o papel de um detetive particular, aceitando casos de clientes ricos e perseguir criminosos comuns. Era claro que havia certa irregularidade na estrutura conceitual, um problema causado pelo próprio King Features que editava o script original de Hammett, reescrevendo e alterando o personagem para o conceito que tinham em mente.

A ambiguidade provavelmente contribuiu para que os quadrinhos de X-9 não fossem tão populares. Mesmo com a colaboração de um dos melhores escritores de todos os tempos e de um dos grandes artistas dos quadrinhos, a tira deixou erros de continuidade que deixou o personagem uma noese dúbia. Isso deve ter causado um desapontamento no renomado autor, que deixou a série após quatro histórias, preferindo escrever roteiros para Hollywood. Raymond continuou por mais um ano – escrevendo e desenhando, mas o seu trabalho meticuloso de desenhar uma página dominical de Flash Gordon e outra de Jim das Selvas o impossibilitaram de continuar na série.

O volume lançado pela Devir trata dessas sete primeiras histórias, de janeiro de 1934 até novembro de 1935, totalizando 570 tiras, apresentando a gênese de um personagem ímpar na história das HQs, além de mostrar um retrato de como era o entretenimento naquela época de ouro. Edição caprichada, em sépia, com a tradução sempre precisa de Marquito Maia, além de uma matéria especial sobre a criação do personagem, as biografias dos autores e a época em que ele foi lançado.

As 216 páginas trazem sete capítulos: “O Caso Powers”, “O Mistério das Armas Silenciosas”,“O Caso Martyn”, “O Caso do Carro Em Chamas”, “O Caso da Garra de Ferro” , “O Caso das Joias Egípcias” e“O Organizador”, que apesar do problema causado pela própria companhia, a tira teve um relativo sucesso. Lendo-as completas, sem a perspectiva do dia-a-dia da época, elas são bem redundantes aos olhos atuais, mas a espera que os leitores tinham, era uma surpresa contínua, de uma situação já resolvida, numa trama surgia complicações, novas opções, imprevistos, personagens que num momento estavam do lado do herói e noutro traiam.

A astúcia e ironia perfilaram no personagem, características que fizeram do personagem sem o moralismo e o bom-mocismo de outros. X-9 fez sucesso, pelas tramas complexas que se estendiam por meses, pelo estereótipo de detetive durão com estilo e classe e pelos nomes que passaram pelo personagem. A edição da Devir é uma oportunidade de conhecer um exemplar dos quadrinhos Gold Age, no formato original, em horizontal, com um pequeno porém, na cor sépia,

Mas a série não terminou com a saída de Hammett/Raymond, Leslie Charteris (The Saint) assume o texto por alguns meses, com Charles Flanders (Lone Ranger) desenhando o misterioso agente. Flanders segue sozinho, abandonando totalmente o conceito hard boiled de Hammett. A tira ficou mais concentrada na ação de procedimentos policiais, investigações e contra-espionagem, tornando, enfim, X-9 num agente secreto, revelando até a agência que trabalhava: o FBI. Resposta direta da popularidade da agência moldada por J.Edgar Hoover. Após Flanders, Nicholas Afonsky (Little Annie Rooney) e Austin Briggs seguem na tira.

Em 1940, Mel Graft assume o posto, mantendo-o por mais tempo que seus antecessores, até 1960, quando passou a escrever o Captain Easy. Foi Graft que concertou um dos maiores absurdos dos quadrinhos: o fato do personagem não poder ser um grande agente “secreto” se todos o chamam de “X-9” o tempo todo, dando o nome de Phil Corrigan ao personagem e o casou com a escritora Wilda Dorray. Também no mesmo período, com a queda do FBI de Hoover, a agência voltou a ser secreta.

Seguiu outros artistas, até que Al Williamson e Archie Goodwin ficam nos créditos de 1967 a 1980, que mudaram o título de X-9, sob protestos, para Secret Agent Corrigan. De 1980 a 1996, o veterano Geoge Evans escreveu e desenhou até sua aponsentadoria. Podemos notar que grandes nomes sempre trabalharam com o personagem, elevando-o a cult de muitos quadrinistas e fãs. Muitas sequencias foram reimpressas, mas não mais atraiu um público grande e saiu de cena, no dia 10 de fevereiro de 1996.

De lado de cá, nas terras tupiniquins, o personagem fez também sucesso, marcando um termo policial e batizando até uma escola de samba paulista. Um clássico que merecia uma publicação deste nível.

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Ativista

Publicado por Cadorno Teles

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