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Batman: O Messias – controverso, mas inegavelmente bom

O Cavaleiro das Trevas (1986) e Watchmen (1986) marcaram a indústria dos quadrinhos com sua nova abordagem narrativa. Seus protagonistas; os super-heróis; pela primeira vez ganhavam uma perspectiva adulta, mais madura. Entretanto, na época; a crítica especializada, sem negar as conquistas estilísticas das duas narrativas, viram as propostas, onde os protagonistas fazem justiça com as próprias mãos, pulando toda a legislação vigente e todo respeito à vontade da maioria, como uma linha de pensamento muito extremo.

Batman: The Cult (Batman, O Messias); quando foi anunciada gerou expectativa como resposta a obra de Frank Miller. Apresentava em seus créditos duas das mais importantes personalidades do mundo dos quadrinhos americanos: Jim Starlin e Bernie Wrightson. Entretanto, apesar da orientação mais progressista, a arte e a profundidade narrativa estavam muito aquém daqueles que Miller abordou e do nome dos dois autores.

Sinopse:

O Batman confronta-se com o carismático líder religioso Blackfire, uma figura com um misterioso passado. Com suas raízes profundamente entranhadas na cidade, o diácono está prestes a criar um exército formado por indigentes e párias. Preso nos esgotos da cidade pelo vilão, longe de seu mundo habitual, o Homem-Morcego se vê repleto de demônios e à beira da loucura, e procura uma forma de recuperar seus dias de herói intocável.

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Publicada originalmente em 1988, a minissérie ganhou um encardenado caprichado em 2019 pela Panini.

O trabalho dos autores

Bernie Wrightson (1948-2017) foi um artista respeitado por todos. Mestre de muitos no manuseio do preto e branco, bem como no uso extremamente pessoal da cor. O artista tinha trabalhado com Starlin em outros momentos naquela década, como Heroes for Hope, um one-shot de 1985 criado para uma campanha contra a fome na África ou Heroes Against Hunger (1986) apresentando Superman e Batman numa outra campanha beneficiente. Além de criarem The Weird em 1988, mesma época de Batman: The Cult.

Jim Starlin (1949) tinha acabado de deixar nas mãos de Peter David seu Dreadstar, sequência da A Odisseia da Metamorfose (Metamorphosis Odyssey no original). E também tinha sido o responsável pela realização de uma das primeiras graphics novels da Marvel: A morte do Capitão Marvel.

De certa forma, nenhum autor foi mais responsável por transportar os conceitos de The Dark Knight Returns tão eficazmente quanto Starlin. Embora seja talvez mais associada à saga cósmica da Marvel, o autor escreveu duas histórias maciçamente icônicas e distintas do Batman . Starlin escreveu A Death in the Family, a história que matou Jason Todd. E essa que estamos a analisar uma história sobre Gotham sob o cerco de um líder religioso maligno que consegue “quebrar” Batman.

Análise

Esta é a história de um religioso, à frente de uma seita de sem-teto, que consegue dobrar a vontade de Batman e quase assumir o controle total de Gotham após iniciar uma campanha para destruir todos os criminosos da cidade.

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Desde o início Batman – O Messias se adorna como O Cavaleiro das Trevas, e assim se submete como uma versão da HQ de Frank Miller,  da origem fotocopiada do protagonista ao formato de combate do Batmóvel. Através de vários quadros fragmentadas e telas que não funcionam com a mesma eficácia que na obra de referência. É uma técnica que Miller usou muito bem em sua célebre HQ. Aqui, no entanto, parece que está simplesmente trilhando um terreno que já conhecemos. Em vez de aceitar o desafio lançado por The Dark Knight Returns para empurrar o personagem para o futuro, Batman – O Messias está contente em fazer o mesmo.

Em comparação, onde O Cavaleiros das Trevas seria uma visão de um possível futuro para Batman, O Messias era uma história baseada no agora, estava acontecendo com o personagem naquele momento. Era uma parte da continuidade da história do Batman, não um o quê, se ou talvez. Essa história também ajudou a definir o tom para muitas coisas que se seguiram.

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Na história, vemos Batman tão desgastado e cansado que nem sabe mais o que é real. Depois de ajudar um sem-teto, Batman é capturado. Nos esgotos sob Gotham City, o religioso Joseph Blackfire tem levantado um exército de desabrigados para assumir o controle da cidade.

No início,  parece ser um bom homem, querendo acabar com a falta de moradia e livrar a cidade do crime, com a ajuda de Batman. Mas ele usou drogas e as doutrinou em seu culto, para promover seu verdadeiro objetivo:  comandar o crime organizado de Gotham e substituir as autoridades eleitas da cidade.

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Nunca antes tínhamos visto nosso herói passar fome, mantido em cativeiro, drogado, torturado e submetido a lavagem cerebral. Batman estava realmente quebrado.

Starlin e Wrightson conseguiram fazer com Batman o que nenhum vilão havia feito. Ao fugir, precisava se recompor fisicamente e psicologicamente e aí que entra a reconstrução de toda a psiquê do personagem e o acerto dos autores.

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Starlin e Wrightson não expôem suas virtudes como roteirista e desenhista, parece cometidos. O artista trabalha bem a cor nas capas, mas seu exímio contraste preto e branco é aplicado em poucos quadros, deixando para as demais um simples traço – menos solto do que em trabalhos anteriores – que o colorista Bill Wray otimizou.

A fórmula de uma derrota esmagadora, uma luta heróica e um retorno triunfante foi usada muitas vezes desde a sua publicação: de Batman: Venom de Dennis O’Neil e José Luis García-López a Batman : A corte das Corujas de Greg Capullo e Scott Snyder. Até a trilogia de filmes de Christopher Nolan é um exemplo dessa história.

Mesmo com as ressalvas Starlin nos oferece um Batman além de seus limites e um herói pronto para fazer o que for preciso e Wrightson desenha um mundo de pesadelo, cheio de terror psicodélico e violência. A história envelheceu bem, numa visão progressista, ao dá um herói em crise e sua redenção final.

“Sempre afirmei que me tornei o Batman na luta contra o crime.

Isso era mentira .

Eu fiz isso para superar o medo.”

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Edição da Abril, lançada em 1989

Nota: Excelente – 4 de 5 estrelas

Para que ninguém se engane, este é um trabalho com resultados acima da média dos quadrinhos. Foi feito quando o formato de prestígio ainda tinha um significado, daí suas ambições. A aspereza desta revisão se deve ao descompasso entre seus propósitos e suas realizações, entre as virtudes de seus autores e o resultado alcançado. Mesmo assim, Starlin e Wrightson são dois grandes autores, gigantes dos quadrinhos americanos, e aqui eles ainda se destacam em altura, embora um pouco encolhidos. E The Cult , embora tenha falhado, tenta, levanta e propõe muito mais do que podemos encontrar na maioria dos quadrinhos do Batman .

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