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A relevância afirmativa de Luke Cage

Luke Cage é mais um personagem da Marvel Comics que ganhará uma série da Netflix, que promete ser mais um sucesso do canal online de filmes e séries streaming. Embora seja bastante conhecido dos fãs de quadrinhos, sobretudo os da “Casa das Ideias”, muitos que estão interessados na série podem se perguntar: quem é Luke Cage?

Também conhecido como Power Man, foi criado por Archie Goodwin, John Romita e George Tuska. Cage já surgiu em sua própria revista, e não como coadjuvante em uma edição de um super-herói mais conhecido, como era de costume nos quadrinhos. Teve sua primeira aparição em “Luke Cage, Hero for Hire # 1”, em junho de 1972. Cage fora criado como um típico anti-herói.

luke_cage2Nascido nas ruas do Harlem, Carl Lucas (seu nome de batismo), junto com seu então amigo Willis Stryker, cometia alguns roubos, além de se meter em conflitos com a gangue adversária chamada Diablos para crédito com o Rei do Crime Sonny Caputo (não confundir com Wilson Fisk), o Hammerhead. Pensando na família, ele se retirou da vida do crime.

Enquanto isso, seu amigo Stryker ascendeu no ramo do crime até que suas atividades deixaram um homem chamado Maggia (O Sindicato) bastante irritado. Maggia perseguiu e encomendou uma surra a Stryker, que foi salvo por seu amigo Luke. Mas as coisas se complicaram quando a namorada de Stryker, com medo do envolvimento com crimes de seu par, decidiu terminar o relacionamento. E buscou consolo com Cage.

Possesso por achar que o amigo foi responsável pela sua separação, Stryker, para se vingar, decidiu plantar heroína no apartamento de Lucas e depois chamar a polícia. Lucas foi preso injustamente. Na cadeia, teve sua correspondência interceptada pelo seu irmão James, o que fez seu pai acreditar que ele havia sido morto e vice versa. Revoltado por estar preso injustamente e pela suposta perda do pai, Cage passou a criar problemas na prisão, se envolvendo em brigas e tentativas de fuga.

Até que, após ser vítima de sabotagem de um carcereiro, fora recrutado como voluntário em uma experiência científica do Doutor Noah Burstein. Desse experimento, ele saiu com uma força descomunal e pele invulnerável. Inicialmente pensava-se que ele podia erguer 25 toneladas, mas foi descoberto que Luke Cage pode suportar até 100 toneladas e é mestre em combate corpo a corpo, pois é lutador de rua. Luke tem a pele totalmente impenetrável que pode suportar tiros, explosões, descargas elétricas entre outros ataques nocivos, mas pode ser ferido internamente, pois seus órgãos não estão totalmente protegidos. Contudo, quando isso acontece, se regenera três vezes mais rápido que um ser humano comum.

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Livre da penitenciária, passou a ganhar a vida como mercenário, geralmente como leão de chácara. O herói coexiste no mesmo universo de  Demolidor, Punho de Ferro e Jessica Jones. Na saga Guerra Civil, que inspirou o mote do último filme do Capitão América, Cage até cogitou se registrar, mas  achou que virar um agente do Governo não seria bom para ele, sua mulher e sua filha. Nem os apelos de A Miss Marvel e do Homem de Ferro foram suficientes para persuadi-lo. Quando as forças de Ataque da SHIELD, comandadas por Nick Fury, decidiram atacar, Luke decidiu se juntar de vez aos Vingadores Secretos do Capitão.

Apesar de não ser muito afeito a amizades com super-heróis, Luke Cage também integraria os Heróis de Aluguel, Novos Vingadores, Defensores, Thunderbolts e até do Quarteto Fantástico, quando Ben Grimm, o Coisa, perdeu seus poderes temporariamente. E, claro, teve alguns embates, inclusive com o Homem-Aranha.

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Nas décadas de 1960 e 70, a Marvel tinha como característica a abordagem humana de seus personagens. Os heróis Marvel não eram semideuses indestrutíveis e muitos deles estavam longe de ter o politismo correto de um escoteiro.

Eram pessoas que, apesar dos superpoderes, eram falíveis e enfrentavam conflitos internos e problemas na vida pessoal. O Homem-Aranha, por exemplo, era um adolescente, com problemas financeiros e não era muito sortudo. Já em X-Men, temos uma metáfora da luta dos direitos civis dos negros nos EUA. Pode-se até fazer um paralelo entre Xavier e o pacifista Martin Luther King e Magneto com o radical Malcom X.

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Luke Cage foi criado em sintonia com o cinema negro americano do início dos anos 1970, que acabou conhecido pelo nome pejorativo de blaxploitation. Foi uma onda de filmes produzidos, dirigidos e estrelados por negros, geralmente de ação e que tinham como cenários centrais os guetos das grandes cidades dos Estados Unidos. E sempre havia uma pitada de erotismo que variava entre o leve e o apimentado, dependendo do filme. Repare como a capa da “Luke Cage, Hero for Hire # 1” remete aos cartazes de filmes como ‘Shaft’, ‘Superfly’.

Um super-herói negro ganhando sua própria revista era um apoio da Marvel a esse movimento cultural de caráter afirmativo. Isso evidenciava ainda mais o fato de que a Casa das Ideias era também a casa da diversidade. Antes de Luke Cage, já havia na Marvel o Falcão e o Pantera Negra, mas não tinham publicação própria. Infelizmente, com o declínio da blaxploitation nas bilheterias, as vendas da revista do herói também caíram.

Assim, ele perdeu sua publicação própria e passou a aparecer como parceiro do Punhos de Ferro, outro personagem baseado em um gênero de filmes popular nos anos 70, no caso, os de artes marciais. A revista era Power Man and Iron Fist, que foi publicada até 1986. Depois, Cage fez aparições em histórias de outros heróis, até ganhar nova publicação própria em 1992, cancelada após 20 edições.

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Vale ressaltar que a criação do personagem não se deu por causa de uma política de inclusão culpada. Coadunava-se com um fato cultural de potência inclusiva, em um momento em que os negros conquistavam seus direitos sociais nos EUA, começavam a ter acesso à universidade e, consequentemente, ter ascensão social, coisa que no Brasil somente se esboçaria décadas depois. Porém, vivemos um mundo em que o mundo e principalmente os EUA não estão livres do racismo e da exclusão social, muito pelo contrário.

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Por isso, as impressões deixadas de que a série de Luke Cage na Netflix terá um viés politizado são bastante animadoras. O canal já se mostrou hábil em produzir séries de heróis, revigorando a imagem do Demolidor, fazendo-nos esquecer do sofrível filme estrelado por Bem Affleck, e transformando Jessica Jones em fenômeno pop. Enquanto os Vingadores, X-Men e o Homem-Aranha têm seu espaço nas telonas, a série B da Marvel vai fazendo muito bonito na Netflix. Aguardamos ansiosamente para que Luke Cage seja mais uma grata surpresa.

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