Mirar: Quando os Olhos se Levantam circula pelos teatros da prefeitura em SP

Com texto e direção de Jé Oliveira, espetáculo convida o público para um passeio sobre as atuais crônicas da América Latina, cheia de saques históricos, personalidade e contradições


O que pulsa a América Latina? Que histórias seus diversos territórios contam? É sobre estas perguntas que o Coletivo  Labirinto se debruçou durante o processo de criação de Mirar: Quando os Olhos se Levantam, com direção e dramaturgia de Jé Oliveira. O espetáculo estreou em 2022 na capital paulista, percorreu o interior do Estado no último ano e agora ganha novas apresentações gratuitas pelos teatros da prefeitura como parte da celebração de sua primeira década de existência e trajetória. 

Ao longo deste semestre o espetáculo percorrerá todas as regiões da cidade, passando pelos Teatros Municipais Paulo Eiró (de 07 a 09 de março), Arthur Azevedo, Cacilda Becker e Alfredo Mesquita (esses últimos com datas ainda a confirmar pela Secretaria Municipal de Cultura). Em cena, estão Abel Xavier, Carol Vidotti, Emilene Gutierrez, Lua Bernardo e Beatriz França (musicistas).

As novas sessões de Mirar: Quando os Olhos Se Levantam marcam o começo do Projeto “Pés-Coração: A América Latina Como Caminho”, em que o Coletivo Labirinto celebra sua primeira década de pesquisa sobre a dramaturgia latino-americana contemporânea.

Depois de uma série de trabalhos teatrais em que o Coletivo levou à cena textos elaborados no além das fronteiras brasileiras – passando por dramaturgias da Argentina, do Uruguai e Chile, por exemplo – o Labirinto aborda em “MIRAR…” tentativas de se (auto) reconhecer nas palavras, limites, histórias, dores, cores e sabores deste corpo e chão comuns, que são nosso continente. 

Em diálogo com o contexto e conteúdo da obra de Augusto Boal, o Coletivo Labirinto propôs nesta criação um passeio sobre as atuais crônicas desse nosso continente tão cheio de saques históricos, personalidade e contradições. A peça contrasta a América Latina da década de 1970 em contágio e contato com a dos últimos anos, quando o trabalho foi criado. Tudo isso com vistas ao encontro de uma América Latina viva, diversa, corajosa e, espera-se, um pouco mais real. 

“As vertentes decolonais, anticoloniais, descoloniais, contracoloniais quais sejam, todas têm em comum um desejo de problematizar o impacto que as invasões europeias nos séculos XV e XVI tiveram e ainda tem em nosso modo de vida. Este espetáculo traz em seu bojo uma aposta de revolução centrada no poder do símbolo, da imagem e da poesia. É sempre tempo e oportunidade para que mais pessoas pensem suas próprias histórias, seu próprio continente, sua própria presença neste mundo”, revela Abel Xavier.

Na trama, quatro caminhantes percorrem lugares e histórias da América Latina em uma espécie de busca-viagem por pertencimento. O espetáculo lança mão de expedientes contemporâneos para revelar o lastro da colonização, celebrar a potência da diversidade dos povos e refletir aspectos contraditórios do nosso continente para mirar além das fronteiras.

O objeto disparador do processo criativo do espetáculo foi o livro Crônicas de Nuestra America, escrito por Augusto Boal e publicado em 1977. A obra reúne dez crônicas que versam sobre situações, ambiências e personagens tipicamente latino-americanas, observadas e colhidas pelo diretor e dramaturgo desde sua saída do Brasil, em 1971, reflexo do endurecimento da ditadura militar em nosso país.

Para esta jornada, o Coletivo encontrou na parceria com o diretor e dramaturgo Jé Oliveira uma potente interlocução acerca de debates e necessidades estéticas e sociais, desenvolvendo conjuntamente um esquema de trabalho fortemente colaborativo e sensivelmente político. 

Em sala de ensaio, toda a equipe artística desenvolveu uma série de procedimentos improvisacionais e de composição cênica que levantaram temáticas, caminhos dramatúrgicos e de encenação. O resultado é um espetáculo que mistura códigos expressivos baseados na relação com o espaço poético, com a musicalidade e símbolos visuais latinos e com a palavra na fronteira entre a postura épica e a vocação lírica. 

Palavras do diretor e dramaturgo sobre o trabalho

“Partindo de provocações cênicas tendo como base, num primeiro momento, o livro “Crônicas de Nuestra América”, escrito por Augusto Boal no exílio em 1971, o processo criativo levantou cenas que buscassem um mapeamento de acontecimentos sínteses de uma relação verificável e sintomática do nosso modo de se portar no continente latino-americano. 

Alguns lugares da América do Sul nos conduzem geograficamente por encontros com pessoas reais e ficcionalizadas, na intenção de refletirmos acerca da nossa contraditória condição de potencialidades humanas e saques históricos, fruto da colonização e genocídio dos povos originários presentes em nosso continente. 

Em diálogo e como complemento destes primeiros expedientes, foram investigados também dispositivos contemporâneos que contivessem um poder de síntese capaz de auxiliar na explicitação dos nossos posicionamentos críticos perante os entendimentos e impasses da nossa atual situação artística, social e política. 

Mirar: Quando os Olhos se Levantam busca, desta forma, reconhecer, integrar e efetivar, seja no campo do simbólico ou no campo concreto das possibilidades, um movimento de “tirar os olhos do Atlântico”, assim como quem busca contato, arribando as vistas, mirando e elaborando um gesto cênico de ação para a construção de um pertencimento mais efetivo. 

Vislumbramos e buscamos, com base nas proposições cênicas deste trabalho, uma possibilidade de futuro menos móvel e mais integrado com a potência dos povos que integram a nossa América Latina.” – Jé Oliveira.

Ficha Técnica

Idealização e Realização: Coletivo Labirinto 

Direção, Dramaturgia e Textos: Jé Oliveira 

Artistas Criadores: Abel Xavier, Carol Vidotti, Emilene Gutierrez; Lua Bernardo e Beatriz França (musicistas)

Assistência de direção: Éder Lopes

Interlocução Artística: Georgette Fadel e Wallyson Mota

Direção Musical: Maria Beraldo 

Vídeos e Projeções: Laíza Dantas 

Iluminação original: Wagner Antônio 

Iluminação Circulação Fomento: Aline Sayuri

Figurino: Éder Lopes

Texto Áudio: Abel Xavier e Jé Oliveira

Operadora de Luz: Aline Sayuri

Operador de Som e Projeção: Tomé de Sousa e Eduardo Gabriel Alves

Designer Gráfico: Renan Marcondes

Fotos: Mayra Azzi

Produção: Corpo Rastreado – Leo Devitto e Lucas Cardoso

Realização: Coletivo Labirinto e Cooperativa Paulista de Teatro

Sinopse

Quatro caminhantes percorrem lugares e histórias da América Latina em uma espécie de busca-viagem por pertencimento. O espetáculo lança mão de expedientes contemporâneos para revelar o lastro da colonização, celebrar a potência da diversidade dos povos, e refletir aspectos contraditórios do nosso continente para mirar além das fronteiras.

Serviço

Mirar: Quando os Olhos se Levantam, com Coletivo Labirinto
Duração: 75 minutos
Classificação: 14 anos

Teatro Paulo Eiró

Endereço: Av. Adolfo Pinheiro, 765, Santo Amaro, São Paulo

Quando: 07 a 09 de março (sexta e sábado às 21h, domingo às 19h)

Quanto: grátis

Ingressos na bilheteria 1h antes do início das sessões


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