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Clive Barker e seu olhar para a obra de George A. Romero em Londres

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O início dos anos 1990 foi um ótimo momento para ser um fã do inglês Clive Barker. Considerado o mestre do Horror Visceral, abria aquela década com três adaptações surgidas de sua imaginação, os filmes Raça das Trevas (Nightbreed, 1990) Hellraiser III – Inferno na Terra (Hellraiser III: Hell on Earth, 1992) e O Mistério de Candyman (Candyman, 1992), como também três livros: a fantasia Imajica, a fábula O Ladrão da Eternidade (The Thief of Always) e o segundo livro artístico do autor Everville. Além disso, alguns títulos dos quadrinhos inspirados nas obras de Barker ou histórias feitas pelo próprio autor eram facilmente encontradas nas bancas de revistas.

A série Tapping the Vein da Eclipse Comics adaptou vários contos dos Livros de Sangue, antes de outras adaptações únicas de outras histórias a serem lançadas pela empresa independente. A Dark Horse publicava Primal, um conto de horror/criatura que co-escreve e a Marvel Comics na linha Epic Comics trazia franquias de Barker como Hellraiser e Nightbreed (e fazendo até um crossover das duas franquias em Jihad).

Entre eles, um achado que não chegou por aqui, e que merece uma análise para quem sabe seja publicado no Brasil.

Publicado em dois volumes em 1993 e co-escrito por Steve Niles, saído da Eclipse Comics, que tinha escrito I Am Legend (1991) e aos 28 anos enveredava com o mestre Barker a contar uma história de mortos-vivos, antes de seu 30 Dias de Noite.

Night of the Living Dead: London, apresentava Barker de maneira rara, girando numa narrativa enraizada no clássico de George A. Romero, ao mesmo tempo que trazia um pouco do humor negro,  sombrio, sexualidade doentia e perverso estilo.

Publicado pela FantaCo Books, apresentava a arte de Carlos Kastro, em um P&B manchado e primoroso, que lembra a estética visual do filme original. A HQ inovava em termos de sua localização, como também se aproximava do universo mítico de Romero.

Baker e Niles respeitam as regras estabelecidas no filme de 1968, mas subvertem de uma maneira que conseguem encaixar dentro do que foi apresentado nos filmes posteriores da franquia Night of the Living Dead.

Conheçam um pouco sobre essa raridade.

A história

O primeiro volume, “Bloodline”, traz um longo prólogo em 1968. Um vôo do JFK para o Aeroporto Gatwick de Londres traz os rumores de  uma “loucura assassina” que acontecia nos EUA, com testemunhas contando histórias sobre mortos que se levantavam para atacar os vivos. Nesse avião, sem o conhecimento de ninguém, uma mulher conseguiu embarcar após uma mordida de um desses loucos.

O que ocorre, já imaginamos, todos são infectados, exceto pelo piloto, que em Londres; condenando a cidade aos mortos-vivos na cidade, o que dá início ao que seria conhecida como a “Guerra dos Vinte e Cinco anos”.

A linha nos leva a 1993, onde o Reino Unido cai pela praga zumbi. Os únicos sobreviventes são um pequeno grupo composto principalmente pela família real e seus funcionários. Escondidos no Palácio de Buckingham para escapar das massas de mortos-vivos mantidos à distância pelos portões que o cercam. É nesse cenário que conhecemos ao Arcebispo Hallam de Buckingham, um padre gay que passa seu tempo livre percorrendo as ruas infestadas de zumbis de Londres em um veículo fortificado.

Hallam é o condutor da história para o segundo volume, “End of the Line”, que junto a outros personagens abordam temas políticos, de linhagem da família real, que levou ao final do primeiro volume a um casamento idílico, com os membros alheios às turbulentas massas de mortos-vivos em seus portões.

O segundo volume abre logo após esse casamento. Com Hallam usando um jovem como um brinquedo sexual. Entretanto, esse personagem começa a apresentar um comportamento estranho, falando apenas raramente, usando maquiagem para manter sua aparência, e até estilhaçando um espelho quando confrontado com sua própria imagem.

O enlace matrimonial intercede um triangulo amoroso que leva a tão aguardada gravidez que a rainha-mãe esperava. O que acarreta a uma tragédia maior causada pela depressão encerrada com qualquer esperança para a humanidade: a invasão dos mortos-vivos. O fim nos apresenta uma surpreendente revelação deixando os leitores se perguntando o que poderia ocorrido em outras edições neste mundo.

Não tem nada de leve na narrativa, Night of the Living Dead: London é opressivamente sombria,  fermentada pela sagacidade de Barke, principalmente em relação ao absurdo da proteção da família real do status quo.

A história também vai muito além do que uma imitação de A Noite dos Mortos-Vivos. Embora a abordagem de Romero seja só a base da HQ, os mortos-vivos aqui não são meros devoradores de vísceras – os autores entregando uma história que trata de religião, classe e sexualidade oprimida que permite que a história se prolongue muito além da sua página final.

Mas, o que torna este título de quadrinhos tão incrivelmente único, é o fato de que nos leva a alguns lugares sombrios enquanto conta sua história. Há momentos chocantes, alguns que definitivamente deixam cair o queixo.

Realmente o que surpreende foi sua exploração da escuridão que reside na humanidade, especificamente, da maneira que abandonamos tudo sem pensar duas vezes quando as regras sociais não estão mais em vigor e como alguns são capazes de simplesmente ignorar o que fazem enquanto estão nessa mentalidade e continuam seu dia como se nada de ruim tivesse acontecido.

A decadência está no roteiro de Barker e Niles, que segue na arte de Carlos Kastro igualmente obsessiva; a mesma estética narrativa é reforçada pela arte em preto e branco, em ilustrações com a aparência decadente de um Reino Unido há muito desaparecido, onde corpos apodrecidos caminham famintos e hediondos mesmo vinte e cinco anos depois que o mundo chegou ao fim.

Uma HQ rara, desconhecida mesmo entre os fãs dos autores e entusiastas de zumbis, mas que consegue ser uma mais fortes pertencentes a este tema. Se você é um fã do Barker, um fã de zumbis ou simplesmente um amante dos grandes quadrinhos de terror, certifique-se de procurar esta narrativa pouco conhecida lá fora, ou cobrar alguma editora em publicar esse material por aqui. Um pesadelo em quadrinhos.

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