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Beastars, uma zootopia das relações sociais

SINOPSE: Em um mundo povoado por animais antropomórficos, herbívoros e carnívoros coexistem. Para os adolescentes da Escola Cherryton, a vida escolar é cheia de esperança, romance, desconfiança e incertezas. O personagem principal é Legosi, um lobo, membro do clube de teatro. Apesar de sua aparência assustadora, ele tem um coração bem gentil. Por boa parte de sua vida, ele sempre foi objeto de medo e ódio dos outros animais, e já se acostumou com esse estilo de vida. Mas logo ele acaba se envolvendo mais com seus colegas de classe, que tem suas próprias porções de inseguranças, e vê sua vida escolar mudar lentamente.

Beastars de Paru Itagaki é um título incomum, tanto pela concepção de seu universo como por seu desenvolvimento. Protagonistas antropomórficos dentro de uma sociedade construída já foi usada em diversas histórias em quadrinhos, lembrando os mais famosos, a Patopólis de Walt Disney e Carl Barks ou o recente Zootopia. O trabalho de Itagaki foi abordar os tropos originais de seus personagens e moldá-los numa psiquê, criando figuras que estão longe da sua relevância apresentada no início, como é o caso de Legoshi, o protagonista do mangá.

Em Beastars se emprega como elemento narrativo as relações sociais, aspectos como classismo, discriminação, marginalização ou a luta para acalmar os instintos animais são muito evidentes durante a leitura. Porque Beastars é um drama, um reflexo perfeito da nossa sociedade.

O mangá começou a ser publicado em 2016 nas páginas da Weekly Shōnen Champion, da  Akita Shoten. Conta já com 9 volumes e mais de 1,5 milhões de copias impressas. Apesar de não contar com um furor midiático, em pouco tempo conseguiu ser premiado como o melhor shōnen na Kodansha Manga Awards, ganhou os Manga Taishō 2018 e o reconhecimento a Itagaki como melhor autora nos Osamu Tezuka Awards 2018. Um ano de êxitos que o posicionaram para o restante do planeta, a Panini, em seu selo Planet Mangá, trouxe essa primeira edição, que analisaremos a seguir.

A Cherryton é uma escola em que se matriculam alunos promissores em áreas diversas. Personagens que estão experimentando uma das etapas mais importantes da vida humana, a adolescência, entram em um cenário que ambienta um verdadeiro reflexo de nossa sociedade atual. Porém a aparente quietude do cotidiano é manchado com um assassinato, o que representa na história, um ponto de inflexão, frente a dualidade herbívoro-carnívora que a obra representa.

E os problemas começam ao nosso protagonista, pois a Caixa de Pandora foi aberta e o medo e o preconceito andam de mãos dadas pela escola. O lobo Legoshi torna-se o alvo, pela imagem preconcebida de um carnívoro, mas seu caráter despreocupado, benevolente, retraído e uma aparência de total melancolia estão muito longe da figura típica do lobo. E ainda mais quando o lobo sentir o maior dos sentimentos, o amor.

Apesar de as peculiaridades que Beastars criarem interesse, o mangá se assemelha de certo modo a outras abordagens cinematográficas como o já citado Zootopia ou literárias como Blacksad, para citar dois exemplos. No entanto, a autora se afastou da produção da Disney, oferecendo uma visão mais adulta e tons sombrios.

Há certa referência com Blacksad de Juan Díaz Canales em sua premissa, pois o misterioso crime dá ao mangá um clima de suspense no mais puro thriller. Mas, apesar dessas semelhanças e está alicerçado no gênero slice of life e no drama escolar, parece um amálgama de elementos diversos, alguns bem familiares, mas com um tom diferente, quase afrodisíaco.A concepção de um universo rico em nuances, com um amplo espaço para o uso de metáforas e analogias com relação à nossa atual sociedade, faz do trabalho de Paru Itagaki um produto de grande valor.

A atração do mangá está na construção de seu protagonista, Legoshi, bem como de outros personagens secundários bastante promissores. Como primeiro volume Itagaki ainda está focada em apresentar sua narrativa, mas ambienta muito bem as relações pessoais, de preconceitos e falsas primeiras impressões, de diferenças culturais e sociais de seus personagens adolescentes no meio da descoberta da idade, de inseguranças e a necessidade de aceitação social.

Legoshi e o resto do elenco que frequenta o internato são os protagonistas da maior dicotomia que apresenta a obra, a classificação e separação entre carnívoros e herbívoros. Todo o imaginário de Itagaki orbita em torno desse conceito. As salas de aula e o desenho geral da Escola mantêm total consonância com essa dualidade. É uma separação explícita,  facilmente observada em aspectos como o layout dos quartos ou da sala de jantar, um local com características que sustenta tal fragmentação. As singularidades de Cherryton apenas aumentam os aspectos negativos que derivam da dicotomia, alguns que se reproduzem em maior escala após o assassinato.

Beastars #1 é um volume introdutório, com um desenvolvimento de apresentar seus personagens, como indivíduos e como conjunto. Seu ritmo é lento e necessário. Quem procura ação nas páginas da obra de Paru Itagaki não encontrará, ao menos neste momento. Mas para aqueles que bisquem uma ficção que envolva a psiquê de seus personagens e prima por uma evolução em uma história que exala suspense e debate moral, Beastars é um achado.

Como já foi mencionado, o protagonismo neste primeiro volume recai totalmente nos ombros de Legoshi, um lobo. As peculiaridades de sua construção fazem com que o leitor se identifique facilmente com o personagem. Itagaki brinca com os preconceitos do ser humano para construí-lo, um canídeo aparentemente feroz, mas que completamente é o oposto, um jovem despreocupado, meio boêmio e que adora dramas. A coexistência com seus instintos, sua luta interna, é um dos principais argumentos do mangá.

Em termos gerais, o trabalho artístico da autora é bem artesanal, com ar de animação/toon, com um traço esboçado, limpo e fino. Também opta por recursos visuais, com contrastes viscerais que reflete o amplo espectro antropomórfico e os detalhes de um cenário que defendem o desafio à própria natureza.

Vale conferir!

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