Big Little Lies
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Big Little Lies e o selo de qualidade HBO

Sempre que as indicações ao Emmy são anunciadas no mês de julho, a HBO tem o orgulho de dizer que é o canal com maior número de indicações. Isso provavelmente acontecerá de novo em 2017, e pode ter certeza de que boa parte das indicações virá de “Big Little Lies”.

A série tem origem em um livro da autora australiana Liane Moriarty, publicado com o título “Pequenas Grandes Mentiras” no Brasil. O anúncio da adaptação para a TV causou excitação não apenas porque é uma história muito intrigante, mas pelo elenco de altíssima qualidade.

A série gira em torno de quatro mães da cidade litorânea de Monterey, na Califórnia. Madeline (Reese Whiterspoon) tem uma filha adolescente, Abigail (Kathryn Newton), do primeiro casamento, e uma filha de seis anos, Chloe (Darby Camp), do segundo. Ela dribla o tédio da vida de dona de casa ao se envolver com a montagem de uma peça de teatro. Ela também tem uma relação turbulenta com o ex-marido, cuja outra filha, do casamento com Bonnie (Zoë Kravitz), também tem seis anos e estuda na mesma classe de Chloe.

Celeste (Nicole Kidman) é mãe de meninos gêmeos. Ela era uma excelente advogada, mas abandonou a carreira quando os garotos nasceram. Seu marido, Perry (Alexander Skarsgård), viaja muito a trabalho, mas quando está em casa ele e Celeste alternam momentos de sexo selvagem e violência doméstica.

Jane (Shailene Woodley) é a mais jovem das mães, e também nova na cidade. Ela e seu filho Ziggy (Iain Armitage) acabaram de se mudar, e Jane pretende fugir do passado. Ziggy é fruto de um estupro, e logo no primeiro dia de aula o menino é acusado de tentar enforcar uma coleguinha. Jane, que já é assombrada pelo trauma, também tem de lidar com as acusações contra o filho.

Renata (Laura Dern) é uma executiva antipática e mãe de Amabella, a menina que Ziggy supostamente tentou enforcar. Renata é arqui-inimiga de Madeline, e tenta proibir a peça dela de estrear por ter conteúdo considerado indecente.

Quando somos crianças ou adolescentes, não costumamos pensar que nossos problemas podem ter raízes no comportamento dos nossos pais – a menos que façamos terapia. É quando nos tornamos adultos que percebemos que existe a rivalidade entre as mães. É uma rivalidade causada pela busca de status, pelas diferenças irreconciliáveis, pela simples má primeira impressão. Este é um dos pontos principais da série.

Digo um dos pontos principais porque o principal é um assassinato investigado desde o primeiro episódio. Assim, a série é contada em flashback, e entrecortada por pequenos depoimentos e comentários de outros pais da escola em que os filhos de Madeline, Celeste, Jane, Renata e Bonnie estudam – e que foi também o local do crime.

A série é tão eletrizante que os mais de 40 minutos de cada episódio passam voando e, para quem vê na HBO, quando os créditos sobem dá uma dor no coração por ter de esperar uma semana para o próximo episódio. Por falar em eletrizante, é interessante notar como a fotografia lembra um pouco “Garota Exemplar” (2014).

A trilha sonora da série vem sendo muito elogiada. A coordenação de música e cenas é perfeita, e o excelente gosto musical da pequena Chloe vem bem a calhar – e fez dela uma das personagens mais queridas da série.

A direção da série fica por conta de Jean-Marc Vallée, que já havia trabalhado com Reese Whiterspoon e Laura Dern no filme “Livre”, de 2014. Reese e Nicole Kidman e são também produtoras executivas da série.  E isto é um grande avanço em Hollywood: com elas no comando, foi possível produzir uma série focada em mulheres fortes, e na complexidade das relações destas mulheres entre si e com os outros.

É louvável que não seja dada uma explicação para a rivalidade entre Renata e Madeline, quando poderia ser dada a explicação simples e preguiçosa de que elas já competiram no passado pela atenção de um homem. É inspirador ver como a amizade entre Madeline, Celeste e Jane é instantânea, e nem por isso menos verdadeira.

É mais louvável ainda que o foco esteja nestas mulheres fortes com mais de 40 anos. Em Hollywood, atrizes que passam desta idade veem as oportunidades diminuindo, e ficam relegadas a papéis coadjuvantes e pouco desafiadores. Esta característica de Big Little Lies incomodou alguns críticos do sexo masculino, que alegara que ninguém quer ver uma série sobre a vida de donas de casa quarentonas. Mas as mais de um milhão de pessoas que assistiram cada episódio só na estreia, e só nos Estados Unidos, provam o contrário.

E as expectativas para o Emmy, quais são? Nicole Kidman, ao interpretar uma mulher vítima de violência doméstica, está espetacular e com certeza será indicada, provavelmente levando a estatueta para casa. Celeste é uma personagem que sofre não apenas porque é violentada, mas porque está em negação. Ela se recusa até mesmo a contar este problema para sua psicóloga, e não quer pedir o divórcio porque seu marido é um bom pai para os meninos. É um caso típico, que acontece todos os dias, e é extremamente doloroso de se ver na tela.

A disputa de minisséries será Big Little Lies contra “Feud: Bette and Joan”. Big Little Lies foi perfeita em sua execução e teve um final satisfatório, provando que há casos em que a simples eliminação de uma fruta podre pode devolver a saúde a todo o pomar.

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