AcervoCríticasLiteratura

Livro de poemas "A pesar, A pedra" retira poema de pedra com ritmo e peso

Se o rosto fosse uma grafia? A feição talhada não no molde (genético), mas em pedra. O rosto nos dá conformidade, ele é uma assinatura de nós corpo. A pedra não tem feição, não há rosto que a individualize, mas há formatos: circular, retangular, pontiaguda. Apesar de não ter nome, esta individuação, a pedra é inclusa em muita coisa, desde alguns adjetivos como robusto, corpóreo, até denominador geográfico como algumas chapadas que correm pelo nosso mapa. A pedra, seu som, é o mais democrático gerador poético que se consta no idioma pátrio. Ela é a rima sonora afecta de outros vocábulos, de sílabas similares. Portanto, embora um pouco uniforme, a pedra é poética até sua medula, se houver uma! E quanto pesa no imaginário coletivo ao se usar tanto no cotidiano linguístico, como vernáculo de imagens, analogias?
A poeta e artista plástica, Edith Derdyk escreveu um belo livro chamado A pesar, A pedra pela editora Patuá. Poemas que carregam não pianos, embora haja muitos acordes, mas pedras em praticamente todos os poemas do livro. Elas deslizam tanto no campo semântico auxiliando na deslocação e alternância de relações entre conceitos como em alguns poemas; alterna-se a imagem gasosa das nuvens, sua locomoção, com a fixidez da pedra ou sua robustez concreta. A poeta é muito hábil em pegar um mote como a grafia da palavra, seu som estético, e trilhar toda uma cantiga, uma balada, em torno de temas afins, criando um melódico campo versátil entre dubiedades e dualidades da relação da pedra com seu entorno. Muito interessante é a pequena definição que ela coloca ao pé da página definindo ou exprimindo uma faceta do conjunto pedra-entorno.
Quinas de sombra em plena noite
atalhos em forma de funil
voz abafada pelos murmúrios
agulhas de espírito ainda convalescente
pensar pedra  
apesar de tudo
e rochas e rochedos e picos e topos
e lajes e seixos e declives e escarpas
e torsões e dobras e erosão
restos de pedra domesticada em ruas
mesas lápides chãos quem escultura
lamentos de poeira
urros vulcânicos
          pedra
Há uma relação muito musical no poema, entre suas partes tanto no nível sonoro-gráfico, quanto nos tópicos que a poeta vai relacionando entre formas de pedra; seus formatos, e como esta justaposição de composição fica esteticamente muito bonita no desenho da página. As partes tanto semânticas quanto sonoras se agrupam de forma aguda e natural. Há sempre um deslizamento do que a pedra pode efetuar de acordo com seu lugar de afecção. rochas e rochedos picos e escarpas no outro verso mesas lápides chãos quem escultura. O que dá a entender que a pedra é moldável, há em sua interioridade, uma maleabilidade quase poética.

Deixe um comentário

Sugeridos
CríticasFilmes

‘Coyote vs. Acme’ é sagaz na proposta e no desenvolvimento

Longa resgata a nostalgia dos desenhos clássicos em uma sátira inteligente que...

CríticasTeatro

Excelente montagem de A Gaivota, de Tchekhóv

O Armazém Companhia de Teatro está de volta com uma nova montagem...

CríticasMúsicaShows

Após longo hiato, Flávio Venturini festeja 50 anos de carreira no Rio com show inspirado

Assistir a um show do cantor, compositor e tecladista Flávio Venturini sempre...

CríticasSéries

Segunda temporada de “Treta” fica aquém do brilhantismo da primeira

Você sabe o que é uma série de antologia? É aquela série...

CríticasFilmesLançamentos

Champagne (2026): uma inesquecível viagem de pai e filho

Ali pela metade do filme holandês “Champagne”, Hans está conversando com um...

LançamentosLiteratura

Escritor Douglas Robberts lança “Meninos avessos, duendes travessos”

Nova obra de Douglas Robberts apresenta o encontro inesperado entre dois meninos...

LançamentosLiteratura

Christian Araújo leva personagens trans a uma Belém distópica em Não Sou um Diário

Escritor e cineasta paraense mistura poesia, ficção científica e cultura pop em...

CríticasFilmes

O Fim da Rua e o ensaio sobre a finitude

O Fim da Rua, produção assinada por J.J. Abrams e sua produtora...

LançamentosLiteratura

Romance premiado sobre violência contra a mulher percorre Sesc RJ

Selecionado pelo Edital de Cultura Sesc RJ Pulsar, “Açougueira”, de Marina Monteiro,...

CríticasFilmes

“Homem-Aranha: Um Novo Dia” e a árdua tarefa de recomeço

Novo longa abraça a essência clássica do herói, longe das muletas do...