Peca O Rei da Gloria Foto de Rodrigo Castro 3
AcervoCríticasTeatro

Originalidade e leveza no espetáculo O Rei da Glória, de Anderson Cunha

Um homem cuja residência é o alto de uma árvore, no bairro da Glória, e cujo nome é Bóson, referente ao bóson de Higgs, a chamada partícula de Deus. É com esse personagem terno, envolto em uma sabedoria que não faz alarde, que se inicia o ótimo e despretensioso espetáculo O rei da Glória. A peça entrelaça personagens e histórias ligados pela cidade e por estranhas notícias de rádio que compõem o cenário urbano no qual emergem. Cada personagem tece um ponto de vista particular sobre as coisas da vida e os habitantes do bairro da Glória a partir de sua inserção no mundo, na maioria das vezes opaca.

Há, por exemplo, o pastor, personagem interessantíssimo que pauta seu sermão nas palavras dicionarizadas, em sua origem, sua raiz etimológica e nos desdobramentos que podem ter para diferentes pessoas. Na mão, tem um dicionário, mais relevante do que a Bíblia, dado que, para ele, aquele que não é capaz de dizer a palavra não é filho de Deus. Assim, sem medo ou hesitação, condenando o politicamente correto, defende que os surdos e os mudos são seres inacabados. Trata-se, quase, de um fetiche da palavra (tanto quanto há o fetiche da mercadoria), que, para o pastor, torna-se a origem e o centro de tudo.

Há também o “vendedor de alegrias”, Rico Star, rodeado pelas inúmeras bugigangas que nada mais são do que um pretexto para oferecer produtos menos lícitos aos seus clientes e que, como se estivesse situado em um ponto privilegiado de observação, põe-se a costurar as histórias dos demais personagens e seus modos de subjetivação.

Quem cria e dá corpo e voz a esses personagens é Anderson Cunha. Junto com Guilherme Miranda, assina também a direção, além de ser o autor do texto. Anderson consegue transitar entre as diferentes entonações que marcam cada um dos personagens: desde a mais terna e doce de Bóson, que aprecia os pássaros e gosta de palmito, até o malandro vendedor de alegrias, passando pelo indignado e retórico pastor, sem contar o MC – EMC ao Quadrado – que distribui um pequeno folheto de poesia e o cineasta que se relaciona problematicamente com uma mulher sinestésica e todas as dificuldades que aí se originam.

Mas, além de excelente atuação, o texto não fica atrás e detém grande originalidade ao construir personagens urbanos que, a partir de suas vivências nada comuns, colocam-se indagações sobre a vida e as formas, mais ou menos legitimadas, de se inserir nos espaços urbanos. Suas indagações são densas, porém nada cansativas, e as perguntas que colocam causam reverberação no espectador. Rico Star, por exemplo, é um dos que fala sua inserção/não-inserção no espaço público, ao trazer a questão de sua invisibilidade social, que é quebrada unicamente pelo cheiro de seu corpo, após dias e dias sem tomar banho. Ele o faz de propósito, cultivando um odor incômodo, repulsivo, com o único intuito de ver a expressão das senhoras ao cruzar por ele na rua, constatando que a aversão dessas madames é um sinal de que o reconhecem. Nisso remete a um paciente do psicanalista Thomas Ogden, que discute um caso clínico em que o analisando cultiva o próprio cheiro como forma de proteção e existência, como forma, sobretudo, de contato social. No caso de Rico Star, é exatamente (e, quiçá, exclusivamente) pelo olfato que passa a ter existência. O trânsito entre visibilidade e invisibilidade requer estranhos subterfúgios.

Já o cenário é uma joia à parte. Assinado por Ronald Teixeira (que também assina a direção de arte) e Guilherme Reis, o ambiente por eles criado cerca os diferentes espaços por onde circulam essas curiosas figuras de objetos variados que se espalham, sem perder a harmonia, pelo chão. O preenchimento que tais objetos conferem ao cenário (alguns deles também pendurados, remetendo ao mundo do personagem Bóson, que mora em uma árvore) evoca a ideia de um mundo pleno de riquezas, com suas pequenas belezas escondidas, com múltiplos usos possíveis, mesmo que ninguém o consiga perceber de imediato.

A área do chão de onde sai o pastor é preenchida por páginas (de Bíblia ou de Dicionário?) que compõem o pequeno palco onde ele inicia sua raivosa pregação. A iluminação, de Paulo César Medeiros, acentua o tom cobre de toda a composição (cenário, figurinos, objetos) conferindo aconchego a esses refúgios urbanos ao mesmo tempo em que esmaece as presenças humanas, dando forma à invisibilidade que o espetáculo busca retratar. É preciso ter atenção para encontrar o valor de pessoas e objetos, pois tudo pode se camuflar. Há uma promessa contida nesse cenário, que aponta para descobertas possíveis. O melhor de tudo é que ele de fato cumpre o que promete.

Enfim, nada melhor do que lançar mãos das palavras do autor dessa pequena obra-prima conforme lemos no programa da peça: “aqui os invisíveis ganham voz”. A leveza e genialidade do texto, dos personagens, das indagações por eles trazidas bem que merecia novas temporadas pelos palcos da cidade.

FICHA TÉCNICA

Texto e atuação: Anderson Cunha
Direção:  Guilherme Miranda e Anderson Cunha
Direção de arte:  Ronald Teixeira
Cenografia e Figurinos:  Ronald Teixeira e Guilherme Reis
Iluminação:  Paulo César Medeiros
Direção de movimento:  Clarice Silva
Fonoaudióloga: Luisa Catoira
Trilha Sonora:  Guilherme Miranda e Anderson Cunha
Assistência de direção: Renata Benicá
Direção de Produção:  Andreia Fernandes e Lya Baptista
Programação Visual:  Silvio Cunha e Rodrigo Micheli
Assessoria de Imprensa: Bianca Senna
Fotografia:  Rodrigo Castro
Mídias Sociais:  Rafael Teixeira
Vozes em off: Julia Shaeffer, Márcio Machado, Guilherme Miranda, Renata Benicá, Adriano Pellegrino e Thaine Amaral
Coordenador Técnico/ Operação: Moisés Farias
Realização:  Cavalo Marinho Produções Artísticas Ltda.

Deixe um comentário

Sugeridos
Street Racer Collection (QUByte Classics)
CríticasGames

Street Racer Collection: a nostalgia larga na frente, o jogo fica pra trás

Street Racer nasceu em 1994, vendido como uma mistura de kart com...

Behemoth ambrosia
CríticasFilmes

Sinfonia de Tony Gilroy com Pedro Pascal conduz Behemoth!

Conhecido por retratar a tensão e o pragmatismo das engrenagens institucionais —...

Zombuffoonery
CríticasGames

Zombuffoonery: tem ouro aí, só faltou garimpar

Jogo de sobreviver a hordas de zumbi é quase um gênero próprio...

Cara de Barro primeiro terror da DC Studios ganha trailer oficial DivulgacaWarner Bros. Pictures
CríticasFilmes

Cara-de-Barro mostra a outra face do DCU

Dirigida por James Watkins, nova aposta do DCU traz Tom Rhys Harries...

FOTO 2 Pequeno Cidadão crédito Pedro Gadia
AgendaInfantilTeatro

Pequeno Cidadão celebra o mês das crianças com BNegão

Pequeno Cidadão desembarca no Rio de Janeiro para uma celebração especial do...

Fábio Cuelli em Geppetto foto Marcelo Pedroso
AgendaTeatro

“Geppetto” terá apresentações gratuitas em sete cidades gaúchas

   Peça teatral gaúcha de maior sucesso em 2025, Geppetto vai iniciar...

The Bathrooms
CríticasGames

Assustando o banheirão em: The Bathrooms

Desde que as Backrooms viraram febre na internet, não param de surgir...

Das duas, uma Foto de Ricardo Avellar (4)
AgendaTeatro

“Das Duas, Uma” no Galpão dos Bonecos

O que permanece vivo quando alguém que amamos já não está mais...

Super Dev Quest
CríticasGames

Super Dev Quest: pula bem, mas não além

O que falar desse? Vou precisar de dedos pra tocar nesse assunto....

IMG
AgendaInfantilTeatro

O Mundo Colorido dos Alimentos em circulação gratuita pelo interior

“Já provou?” “Não, mas não gosto.” Quem convive com crianças conhece de...

Pit Panic
CríticasGames

Pit Panic é competente e jovial

Roguelike de plataforma vive daquela vontade de tentar só mais uma vez,...

Filho da Margem crédito Leonardo Miranda (10)
AgendaTeatro

“Filho da Margem” no Sesc Copacabana

Com idealização e direção do coreógrafo e performer Marcio Cunha, o espetáculo...

Aggelos
CríticasGames

Aggelos 2: asas novas, mesmo caminho

Aggelos, de 2018, nunca escondeu a paixão por Wonder Boy, e a...

Suely Farhi [..]
Acervo

Suely Farhi e Luiza Interlenghi realizam visita mediada no CCJF

Nesta sexta-feira, dia 23 de outubro, às 17h, será realizada uma visita...

Lívia Feltre como Duende Dudú, Adriana Lessa como a Rainha da Neve e Carol Romano como Duende Dedé (Crédito João Pedro Hachiya)
AgendaTeatro

Rio Branco recebe “Sonho Encantado de Cordel, O Musical”

Com músicas originais de Paulinho Moska, Chico César e Zeca Baleiro, peça...

Street Fighter
CríticasFilmes

‘Street Fighter’ preza pela fidelidade, mas escorrega na estrutura

Os fãs de Street Fighter tinham a certeza de que o game...

Captura de tela 2026 10 13
AgendaTeatro

Luiza Mariani estreia solo autoral O que meu peito carrega sobre mim

O texto da peça nasce de uma experiência pessoal de sua intérprete-autora...

Núcleo Pèrègun, formado por Carol Rocha Ewaci e Wellington Ngunga, participa do Poéticas Pretas 2026. Foto acervo do grupo
AgendaTeatro

Poéticas Pretas 2026 – Territórios em movimento

Com inspiração no pensamento da historiadora Beatriz Nascimento, o evento do NEABI/Célia...

1 FESTA NO ARRAIAL O MUSICAL
AgendaTeatro

“Festa no Arraial, O Musical” desembarca em Brasília

Livremente inspirado em “Sonho de uma Noite de Verão”, de William Shakespeare,...