FilmesQuadrinhos

Uma breve análise sobre a psique do Batman de Christopher Nolan

O conceito de personagem deveria vir acompanhado de uma referência à indeterminação, ainda que isso seja um tanto óbvio. Como muitos outros, o Batman é um personagem fictício cuja existência se perpetua em função não só das interpretações dos autores que se comprometem a nos abrilhantar com as mais curiosas histórias sobre seu universo, como aos devaneios de seus leitores, eternos devotos de tais narrativas. É o cruzamento desses fluxos criativos que dá origem à lenda.

Pois, os comentários a seguir são frutos de um raciocínio a respeito de uma análise da personalidade do Batman sob o óculo interpretativo dos dois principais autores do personagem da atualidade: Christopher Nolan e Grant Morrison (principalmente em análise a Batman Arkham Asylum, já que é nessa obra que o argumentista melhor trabalha a personalidade de seu Homem Morcego), cada um em sua área. Tais comentários expressam uma visão pessoal sobre as obras citadas, e não constituem uma análise “profissional” da psique do Cavaleiro das Trevas.

Diferentemente da temática discutida comumente nos quadrinhos, o Batman de Christopher Nolan é construído segundo alguns preceitos que podem ser facilmente identificados ao olharmos para certos diálogos, principalmente os presentes nos dois primeiros filmes da trilogia. Nesses, contemplamos não só a criação do conceito do Cavaleiro das Trevas em si, como seu real objetivo perante a criminalidade crescente de Gotham, e seu papel diante de todo esse caos social.

 

Um novo conceito de herói e a criação de um símbolo

Em Batman Begins, para conceber o que seria um vigilante mascarado, Nolan promove uma desconstrução do próprio conceito do que um herói é, e do que ele realmente pode vir a ser. O treinamento de Bruce Wayne em ninjutsu junto à Liga das Sombras transparece com certa clareza os conceitos que distanciam o caráter de herói clássico visto nas obras de Burton e Schumacher.

A personalidade do Batman vai se moldando sob uma perspectiva intrinsecamente sombria; Wayne faz um sacrifício pessoal em prol da criação de um símbolo incorruptível, como bem define em um de seus discursos:

“People need dramatic examples to shake them out of apathy and I can’t do that as Bruce Wayne, as a man I’m flesh and blood I can be ignored I can be destroyed but as a symbol, as a symbol I can be incorruptible, I can be everlasting.” Wayne a Alfred, Batman Begins.

Curiosamente, é de Henri Ducard, personagem que viria a ser o grande inimigo de Batman no primeiro filme da trilogia, que Bruce Wayne é instruído a suprimir sua personalidade humana em prol da criação de uma lenda unicamente baseada no medo.

É exatamente com tal proposição que o primeiro teaser de O Cavaleiro das Trevas Ressurge vem a público:

“If you make yourself more than just a man, if you devote yourself to an ideal, then they can’t stop you and you become something else entirely… a legend Mr. Wayne, a legend”. Henri Ducard, Batman Begins.

A ideia de herói na trilogia de Nolan funciona de uma forma particular se comparada ao significado que comumente vemos associado ao vocábulo. Classicamente, o herói é uma persona única, que normalmente não se vê permitido propor qualquer distinção moral entre a “face” e a “máscara”. Aqui, Wayne e Batman não podem sequer serem considerados duas personalidades de um mesmo corpo; estariam mais para um homem (Wayne) que se compromete a manter, proteger e promover uma entidade com vida própria (o Batman).

Em análise à trilogia do Cavaleiro das Trevas, percebemos que Wayne não estava esperando tornar-se um herói, porque ele mesmo compreendia que sua moral já estava corrompida; que seu móbil não era completamente válido, embora seu objetivo final o fosse – várias passagens comprovam tal prerrogativa, mas, basta pensarmos que a origem de sua motivação veio de um sentimento de vingança, tendo sido alimentado em sua passagem pela Liga das Sombras, muito embora Wayne tenha ignorado certos ensinamentos. Sua preocupação ao cunhar um símbolo era inspirar heroísmo nos verdadeiros heróis, que jaziam acuados pela corrupção e pelo crime de Gotham. Isso fica claro no segundo filme, quando o plano de Bruce na promoção de Harvey Dent como o “Cavaleiro Branco” é revelado.

É na conversa entre o comissário Gordon e seu filho que podemos perceber o conceito de heroísmo em sua forma mais pura.

“James Gordon Jr.: Why’s he running, Dad?

Lt. James Gordon: Because we have to chase him.

James Gordon Jr.: He didn’t do anything wrong.

Lt. James Gordon: Because he’s the hero Gotham deserves, but not the one it needs right now. So we’ll hunt him. Because he can take it. Because he’s not our hero. He’s a silent guardian, a watchful protector. A dark knight.”

Após Havey ter sucumbido à loucura, Batman se vê obrigado a se tornar o próprio vilão – no intuito de conservar os ideais que havia construído em parceria com Dent até então. É neste momento que o verdadeiro herói nasce; um herói tão temido quanto os verdadeiros vilões, e que, para realizar atos realmente heroicos, estaria disposto a abdicar de seu prestígio e glória – tal conceito, na visão do diretor, é a personificação do verdadeiro herói, uma noção muito mais política e filosófica que os já explorados anteriormente.

 

A expansão de um medo pessoal: nasce o Batman

Ao contrário do conceito clássico de herói, o símbolo do Batman pensado por Nolan não deve despertar segurança, orgulho ou qualquer outro sentimento edificante a quem nele se espelha. Tal conceito serve apenas para propagar o medo. É uma medida imediata, temporária, e deve ser implementada junto a um plano de reformulação que serviria aos propósitos de uma revolução social.

“Bats frighten me. It’s time my enemies shared my dread.” Bruce Wayne, Batman Begins.

Com esta declaração, podemos perceber o plano de Bruce Wayne em compartilhar seu medo com a criminalidade. Na trilogia recente vemos que as ações do Homem Morcego são inspiradas e guiadas pelo medo, bem como suas atitudes. O fato de o temor gerir toda a construção do conceito do personagem distancia os filmes do Nolan de qualquer outro longa já feito sobre o Cavaleiro das Trevas, e aproxima o personagem dos típicos monstros dos filmes de terror – como um conceito, naturalmente. É exatamente devido a este fato que o Batman aparenta ser mais uma força da natureza que um herói propriamente dito. Suas atitudes soam mais como um fardo que uma responsabilidade ufanista.

Nolan posa ao lado do famoso Batsinal

 

O paradoxo moral na conduta do Batman

Embora Wayne saiba que sua moral não é idealmente vigorosa, seu alter ego possui um conjunto de valores que serão honrados durante toda a trilogia; o principal valor seria o voto de não matar. Isso demonstra que em momento algum o homem por trás da máscara sucumbiu à loucura, ou sequer flerta com tal limiar, ao contrário do Batman morrissoniano, por exemplo.

Capa da edição de 15º aniversáio de Arkham Asylum

Bruce Wayne é um homem compenetrado e, pasme, mentalmente são. Suas atitudes são reflexos de um plano muito bem arquitetado, talvez desesperado, mas, ainda assim, eficaz. Caso houvesse cedido à demência, acredito que suas atitudes não poderiam ser guiadas por qualquer diretriz de valor moral.

Apenas para um contraponto, o Batman de Grant Morrison já aparece como um homem desequilibrado com a motivação favorável aos interesses da justiça; não que ele haja como um agente defensor da lei, o que acontece é apenas uma curiosa coincidência. Seus atos são respaldados pelo senso de vingança aos assassinos de seus pais.

Assim como Wayne dá lugar à figura do Batman, o assassino do passado dá lugar a qualquer criminoso que cruze o caminho do Cavaleiro das Trevas; aqui, os conceitos de agente e símbolo (no caso, criminoso e crime) se confundem. O Homem Morcego é, então, um mero escravo de sua loucura. E seus inimigos existem em um plano mais íntimo, onde a diferença de vilão e herói está unicamente relacionada à motivação, e não ao caráter.

“Sometimes… Sometimes I think the Asylum is a head. We’re inside a huge head that dreams us all into being. Perhaps It’s your head, Batman. Arkham is a looking glass. And We are you.” Chapeleiro Louco, Batman Arkham Asylum: A Serious House on Serious Earth.

Para Nolan, isso não ocorre. Wayne leva o assassinato de seus pais como um motivador para incitar uma revolução, não para se vingar. Embora no primeiro filme isso aparente ser uma inverdade, é possível perceber que os planos e atitudes futuras de Bruce Wayne não condizem com uma vaga busca por vingança.

**

Em última análise, vemos que apesar de são, o Batman de Nolan é um personagem assombrado, e utiliza seus medos como sua motivação, estendendo tais temores ao utilizá-los como arma contra seus inimigos. O cineasta utiliza o personagem para explorar de forma mais filosófica, psicológica e política, o real conceito de herói.

Vemos que a trilogia do Cavaleiro das Trevas é sobre um homem cujas ações nem sempre beneficiam a sociedade em que ele está inserido; o Batman não deve ser alguém adorado por aqueles que ele protege, e não desperta o mesmo sentimento de segurança que a ação das forças policiais. O Cavaleiro das Trevas de Nolan não é essencialmente um herói. É algo melhor e muito mais grandioso que isso.

Deixe um comentário

Sugeridos
100 Dias que conta a história de Amyr Klink
AgendaFestivaisFilmes

Festival do Cinema Brasileiro traz filmes a R$ 12 em todo o país

O Festival do Cinema Brasileiro será realizado entre os dias 29 de...

Behemoth ambrosia
CríticasFilmes

Sinfonia de Tony Gilroy com Pedro Pascal conduz Behemoth!

Conhecido por retratar a tensão e o pragmatismo das engrenagens institucionais —...

Marvel
AgendaFestivaisFilmes

Marvel Day na CCXP26 terá dia inteiramente dedicado à Casa das Ideias

A organização da CCXP26 anunciou que o primeiro dia de portas abertas...

Mestres do Universo
FilmesNotícias

Diretor de Mestres do Universo se pronuncia sobre a continuação

Travis Knight expressou entusiasmo em retornar ao universo de Eternia, mas admitiu...

Cara de Barro primeiro terror da DC Studios ganha trailer oficial DivulgacaWarner Bros. Pictures
CríticasFilmes

Cara-de-Barro mostra a outra face do DCU

Dirigida por James Watkins, nova aposta do DCU traz Tom Rhys Harries...

Latitude Zero (2001) crédito Olhar Imaginário
AgendaFestivaisFilmes

Mostra de Cinema Toni Venturi em São Paulo

A trajetória de um dos nomes mais importantes do cinema brasileiro recente...

Doc Brown
AstrosFilmesNotícias

Grande Scott! Christopher Lloyd, de ‘De Volta para o Futuro’, estará na CCXP26

Eterno Dr. Emmett Brown desembarca pela primeira vez no país para participar...

Street fighter fase bonus ambrosia
FilmesGamesNotícias

Street Fighter: fase bônus toma rua de São Paulo

Para celebrar a estreia do filme, ação criada pela Leo, combina carros...

Street Fighter
CríticasFilmes

‘Street Fighter’ preza pela fidelidade, mas escorrega na estrutura

Os fãs de Street Fighter tinham a certeza de que o game...

Cinema CENTRAL Anos 1930 Acervo Fototeca Sioma Breitamn MJJF
AgendaFilmes

Os 130 anos da primeira sessão de cinema em Porto Alegre

  Em 5 de novembro de 1896, a primeira sessão de cinema de...

Diego Esteve e Yasmin Martins Mendes
AgendaFilmes

‘Festival Intl de Cinema de Carazinho’ chega a 2ª edição

Após o sucesso da primeira edição em 2025, o ‘Festival Intl de...

The batman parte 2 revista ambrosia filmes
FilmesNotícias

Batman 2: Steven Soderbergh assume reta final das filmagens após afastamento de Matt Reeves

Cineasta de ‘Onze Homens e um Segredo’ assume o comando da fotografia...

Squel Confissões de uma porta bandeira
AgendaFestivaisFilmes

‘Squel, Confissões de uma porta-bandeira’ participa da 50ª Mostra de São Paulo

Após se aposentar em 2022, Squel Jorgea decide voltar ao Carnaval do...

Street Fighter trailer jogável
FilmesNotícias

‘Street Fighter’: Noah Centineo revela que coordenor de dublês garantiu a fidelidade aos golpes do game

Com visual e movimentos fiéis aos clássicos dos videogames, a nova adaptação...

O Deserto de Luiza Alan Minas
FestivaisFilmesNotíciasPremiações

Festival do Rio anuncia vencedores do Troféu Redentor

O Festival do Rio 2026 encerrou esta noite sua 28ª edição com...

Na Terra de Arto (Le Pays D’arto) crédito Autoral Filmes
AgendaFestivaisFilmes

Dois títulos da 50ª Mostra de São Paulo

Com première nacional no evento, dentro da mostra Perspectiva Internacional: “Na Terra...

Festival do Rio
AgendaFestivaisFilmes

Festival do Rio exibe repescagem dos melhores filmes da edição

Depois de dez dias de comemoração do cinema brasileiro com a exibição...