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“Cursed – A Lenda do Lago” faz uma releitura moderna dos mitos arturianos

A Netflix parece ter encontrado um filão nas séries ambientadas em cenários de fantasia. Um bom exemplo foi com The Witcher, que imediatamente se tornou uma das produções mais populares da plataforma, como também The Warrior Nun aparece nos 10 mais vistos na plataforma desde sua estréia, há quase duas semanas.

Agora é a vez de Cursed – A lenda do Lago, adaptação de um livro de Tom Wheeler e Frank Miller que chega recentemente, pronta para se tornar uma das grandes sensações do momento.

Os mitos arturianos, surgido na antiga Bretanha, são em grande parte o reservatório de histórias sobre uma utopia de virtude cavalheiresca. Apresentava a antiga religião da ilha combinada com uma nova, a cristã. Merlin, Morgana, Uther e Camelot; os cavaleiros Galahad, Gawain e Lancelot. Excalibur e a távola redonda, protótipos da literatura atual sobre o gênero de fantasia em muitos aspectos. Livros como os escritos por Mary Stewart (A Trilogia Merlin) e por Marion Zimmer Bradley são exemplos dessa literatura.

Cursed – A lenda do Lago é uma releitura dessas lendas que potencializa a figura da Dama do Lago, atualizando um relato que já foi contado diversas vezes. E que certamente bebe das fontes literárias. Após a série Camelot (2011), um fracasso que não passou da primeira temporada, o grande temor era a Netflix optasse por um enfoque mais infantil. Por sorte, Wheeler e Miller estiveram a frente da produção, exercendo um tom adequado para chegar a todos públicos.

Para deixar mais claro, existem elementos românticos que parecem mais destinados a atingir o público mais jovem, mas é só mais um ingrediente na narrativa e não centro da história.  Não é particularmente bem administrado, mas também não incomoda e se encaixa na evolução da série.

Uma introdução envolvente

Uma narrativa que reinventa os eventos que ocorreram antes da lenda do rei Arthur e seus cavaleiros se desenvolverem. Concentrando-se em Nimue, tradicionalmente conhecida como a Dama do Lago.

Cursed – A Lenda do Lago ao tentar quebrar moldes (com uma protagonista, sexualidade feminina, sem o código de cavaleiros eliminados…) segue com alguns passos bem arquetípicos. A pária que é destinada ser a redentora que guiará o caminho de seu povo e o objeto mágico que terá importância nessa missão de libertação são inspirações de diversas histórias.

Nimue é interpretado por Katherine Langford. Atriz de filmes como Entre Facas e Segredos (2019) e Com Amor, Simon (2018) e na série Os 13 Porquês, Langford faz aqui o que fez no seu papel mais conhecido, o papel de pária, aquela nascida para ser diferente, uma excluída que irá questionar os cânones estabelecidos, embora aqui a magia desempenhe um papel predominante em sua maldição.

A personagem começará a jornada típica de maturação do herói. Além de construir um universo onde as mulheres expõem seu ponto de vista, na verdade a história é narrada na íntegra a partir dessa perspectiva.

Além de uma produção bem feita, não somente do dinheiro investido, mas pelos talentos reunidos como, Catrin Meredydd no design de produção, Marianne Agertoft no figurino, James Friend na fotografia, Zetna Fuentes (The Deuce, Shameless) e, Jon East na direção, compõem um bom trabalho técnico.

O que faltou foi a reconstrução do mito que não superou o sentido estabelecido. O caminho do herói é sempre o mesmo? Deveria ser, pois os protagonistas aqui são Nimue, a espada e a transformação do mundo conhecido pela ação violenta da igreja e sua caça às raças mágicas (os feéricos). A protagonista segue o monomito, a busca pela aceitação do pai, para merecer seu respeito e amor, o chamado mágico para a aventura, a ajuda sobrenatural, cruzando o primeiro limiar e iniciação; mas falta uma verdadeira busca feminina.

O resto do elenco

O que realmente importa aqui é a jornada de Nimue, tanto física quanto emocionalmente, para cumprir a missão que lhe foi confiada: entregar uma espada lendária a Merlin, um místico que perdeu a reputação. Uma situação que a série endossa através das ações do personagem interpretado por Gustaf Skarsgard, que parece ter gostado do épico medieval após sua passagem por Vikings (2013-2019), como o célebre Floki.

É um Merlin que pode causar rejeição inicialmente, um aspecto que a série usa bem para manter o mistério de quais são suas verdadeiras intenções. E o amplia sua mitologia, lindando bem com certos obstáculos narrativos e preparando tudo para quando a coisa realmente explodir.

Quanto aos demais personagens, são bastante planos, carecem de profundidade, em grande parte devido ao roteiro que não desenvolve sutilezas e nuances que os atores pudessem contribuir. Cada personagem faz o que tem que fazer, diz o que pensa e a cada cena aparece com um certo avanço. O desempenho dos atores fica dentro desse patamar.

Devon Terrell como Arthur

 

Shalom Brune-Franklin como Morgana, uma freira receosa que se tornará uma personagem intrigante para uma próxima temporada.

A situação com os antagonistas não é muito diferente. Todos são estereótipos de vilões: o inseguro que deseja todo o poder, o poderoso e cruel líder de uma seita, o fanático cujas idéias excedem os limites de sua própria crença e o guerreiro impiedoso. Ao menos há uma busca por variedade.

Efeitos especiais com o Merlin de Gustaf Skarsgård.

 

Exemplo de maquiagem, o ator Ólafur Darri Ólafsson como Rugen O Rei Leproso

Apesar desse aspecto frente ao elenco é a parte técnica consegue compor uma boa série, com sua belíssima fotografia, com cenários que passam a carga mitológica da narrativa, efeitos especias, figurinos, apesar da maquiagem limpa, que gradualmente vai se corrompendo com vísceras e sangue.

Cena no set de filmagem.

Thomas Wheeler, como fã das lendas da Távora Redonda, escreveu o livro que origina a série convidando o renomado Frank Miller para ilustrar. Pensado como uma HQ, o argumento foi facilmente passado para a telinha, a produção acerta na parte técnica, na escolha do elenco, cenografia e linguagem juvenil da Netflix.

A narrativa anda no mesmo ritmo das páginas do livro até o terceiro episódio.  A partir daí, há momentos em comum, mas algumas tramas foram alteradas para incluir ou fornecer mais detalhes sobre outros personagens. Cheia de representatividade, a série reorganiza e ressignifica a lenda arturiana.

Por fim, Cursed – A lenda do Lago é uma fantasia empolgante, serve como uma porta de entrada para os ciclos arturianos. E para os fãs de fantasia medieval há muitos elementos que poderão desfrutar se não forem muito exigentes. Vale assistir, entretem pelo ponto diferente das lendas conhecidas.

Avaliação: Excelente (4 de 5 estrelas)

“Cursed – A Lenda do Lago” faz uma releitura moderna dos mitos arturianos
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