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“Ferrugem” faz um mosaico surpreendente dos tipos humanos de forma lírica no traço

Marcelo Moutinho

O prazer da retórica cabe num ponto onde a cerimônia talvez seja mais importante ao que se tem a dizer. Muita gente ouvindo, um único sujeito, se o discurso do cara fosse lá travesso, cheio de boas imagens, isso não ia dar muito certo. Mas, ao avesso desta prática, há uma narração que se almeja também a ouvintes, mas que, no seu processo de transmissão do conteúdo, vai para outra linhagem escrita.

No seu livro de contos “Ferrugem”, editado pela Record, Marcelo Moutinho traz contos que  surpreendem pela ação climática que acontece em cada um, mas que, na sua veia cotidiana e bem cronística, fazem um mosaico surpreendente de como uma cidade pode nos revelar tipos humanos com que nós, também participantes deste cotidiano, às vezes não nos deparamos. Moutinho tem um olhar de cronista, sim, mas vem neste olhar uma forma pontual de visualização cinematográfica.

Como no conto da Estrela, tornar o real o fato que está se expondo numa linha que abra ao insólito, que mexa com o poético, que  crie, isso Moutinho faz muito bem. Um efeito de verossimilhança, mesmo sendo fantástico em seus efeitos narrativos. O que traz, por exemplo, ao conto 362 (da cobradora) uma linha melódica não é o percurso do ônibus e seus passageiros, mas assim, uma sucessão de quereres que quebram a rotina de uma viagem que seria mais uma se não o interesse de Custódio por um moça que viaja no mesmo horário. Neste conto, há toda uma ressignificação da palavra convivência, todo um lastro e laço que une pessoas que acabaram de se conhecer.

Marcelo não quer apenas caracterizar tipos de um painel urbano, como a cidade do Rio de janeiro, que olhar os personagens com afetividade. Como Severino Antonio de Sousa, que trabalha numa boate e tem no repertório do Rei um jeito de lhe salvar o emprego, pois os tempos são outros, não há mais espaço para o romantismo dentro daquela casa. Mas, neste conto, como em outros, há um olhar para o memória, para coisas ou lembranças que se querem atuantes também no presente. Este olhar de recordar que é quase um olhar de recorte, da mão que alinha e costura a ação saudosa do tempo nas vivências cotidianas de cada um de nós.

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