CríticasSériesTV

Minissérie “Irma Vep” é retrato bem-humorado dos bastidores do show business

Co-produzida pelo prestigioso estúdio A24, Irma Vep tem como uma de suas produtoras a também protagonista Alicia Vikander.

Pode um cineasta fazer um remake de sua própria obra? Por mais estranho que isso possa parecer, a reposta é um sonoro SIM. Isso acontecia com frequência na primeira metade da era do cinema mudo, com curtas-metragens reinando na programação das salas de cinema e os diretores, que aprendiam a profissão conforme a criavam, fazendo um filme por semana e sem pensar duas vezes para reciclar ideias.

Um exemplo mais concreto: Alfred Hitchcock filmou O Homem que Sabia Demais duas vezes: na Inglaterra em 1934 e em Hollywood em 1956, com pequenas modificações. Com o surgimento e popularização de outras linguagens audiovisuais, surgiram outras oportunidades de remake, como esta à nossa frente: Irma Vep, série da HBO criada por Olivier Assayas que é o remake de um filme de 1996 do mesmo diretor.

Mira Harberg (Alicia Vikander) é uma atriz de sucesso que acaba de estrelar um filme de super-heróis. Seu próximo projeto tem outra escala: trata-se de uma série que é remake de “Os Vampiros”, seriado francês feito em 1915, a ser filmado em Paris pelo cineasta René Vidal (Vincent Macaigne). Chegando a Paris, Mira reencontra o diretor de seu filme anterior, Herman (Byron Bowers) e a esposa dele, Laurie (Adria Arjona), ex-assistente e ex-namorada de Mira. Ela encontra também o ex-namorado Eammon (Tom Sturridge), que parece já tê-la superado, embora ainda goste de desabafar com ela.

Edmond (Vincent Lacoste) interpreta em “Os Vampiros” Philippe Guérande, o mocinho do seriado. Inconformado por refilmar tudo conforme foi filmado no século passado, ele faz sugestões de mudança para René, incluindo adicionar uma cena de sexo.

Em busca de uma motivação para o personagem, ele fará de tudo, inclusive agredir o diretor. E Edmond não será o único membro da equipe a causar problemas para quem trabalha atrás das câmeras: o ator alemão Gottfried von Schack (Lars Eidinger) infernizará a vida de todos com seu comportamento errático.

Com cenas do seriado de Louis Feuillade sendo exibidas e, em seguida, recriadas pelo elenco da série dentro da série, temos um curioso caso de “antes e depois” que se desenha à nossa frente. Com dez episódios, o seriado se destaca na filmografia de Feuillade, que fez mais de 700 filmes, a maioria deles curtas. É um dos raros filmes que sobreviveram ao teste do tempo em sua forma – afinal, estima-se que entre 75 e 90% dos filmes mudos estão perdidos – e conteúdo – mostrando hoje o mesmo frescor narrativo de há mais de 100 anos.

A partir do quinto episódio, começam a pipocar também cenas que seriam reconstruções dos bastidores do seriado de 1915. Nestas cenas, Alicia Vikander interpreta Musidora e Louis Feuillade é interpretado por Vincent Macaigne, alternando falas em francês e em inglês com sotaque francês. As imagens são suavizadas, como que cobertas por talco ou filmadas através de um tecido de seda, técnica esta que era usada para suavização de imagens no cinema mudo.

Por vezes nos perguntamos se René Vidal não é um alter-ego de Olivier Assayas, afinal, René já fez uma refilmagem de “Os Vampiros” como filme e agora, ele mesmo diz, está expandindo a ideia para uma série – que não é nada além do que Assayas está fazendo. René se sente pressionado por estar refilmando uma obra-prima, mesmo tendo uma conexão praticamente espiritual com o cinema e com a personagem, característica que talvez divida com Assayas.

O legado de Irma Vep

Irma Vep, no seriado original, foi interpretada por Musidora, que se tornou um ícone graças ao papel. No primeiro episódio da série já nos contam que Musidora foi muito mais que musa passiva: atriz, diretora, crítica, ela dedicou sua vida ao cinema, primeiro atuando em frente às câmeras e, com o fim da era muda, escrevendo sobre filmes e compartilhando suas memórias. Muito mais que ícone fashion ou que a suposta primeira femme fatale, Musidora é uma pioneira e uma inspiração.

E, de fato, o seriado “Os Vampiros” serviu de inspiração para muitos cineastas e mesmo gêneros inteiros dentro do cinema devem alguma coisa à grande obra de Feuillade. A lista de inspirados, direta ou indiretamente por “Os Vampiros”, vai de Fritz Lang a Alain Resnais, passando pelo mestre do suspense Alfred Hitchcock.

Em 1984, o seriado foi uma das influências para Charles Ludlam escrever a peça satírica em três atos “The Mystery of Irma Vep”. Traduzida para o português como “O Mistério de Irma Vap” – para manter o anagrama “Irma Vap” e “Vampira” – a peça foi um tremendo sucesso, ficando em cartaz entre 1986 e 2013 com os mesmos atores, Marco Nanini e Ney Latorraca, feito este que garantiu um lugar no Guinness Book. Em 2006, foi feito um filme baseado na peça, “Irma Vap – O Retorno”.

No filme de 1996, René Vidal é interpretado pela lenda do cinema francês, Jean-Pierre Léaud, acostumado a ser nas telas alter-ego de seu diretor desde os tempos formativos com Truffaut. Já Irma Vep é interpretada por uma atriz chinesa, Maggie (Maggie Cheung). A gênese de quase tudo da minissérie está no filme, menos a de Gottfried. Com oito horas de duração, em vez de 98 minutos, a minissérie consegue desenvolver melhor as personagens e as situações propostas no filme.

Decepções e representações em Irma Vep 

Muitos espectadores se interessaram pelo seriado por causa da relação entre Mira e Laurie, que foi bastante explorada nos trailers, e mais tarde se decepcionaram porque o relacionamento não é o foco da minissérie. Não se trata aqui de um caso de queerbaiting – quando um personagem é anunciado como LGBTQIA+ ou quando se sugere uma relação entre pessoas do mesmo gênero mas essa promessa / sugestão acaba não se concretizando – mas de um caso de expectativas não correspondidas. Mesmo assim, não faltam cenas de flerte em Irma Vep.

Quem trabalha na indústria do entretenimento e assistiu a Irma Vep disse que o retrato dos bastidores de uma série é perfeito. O caos é elemento constante na produção – caos exacerbado e inclusive procurado por Gottfried – e os jogadores deste jogo de sonhos que é o show business vão desde os céticos até os sonhadores – como Mira e René, e provavelmente o próprio Assayas, que foi crítico de cinema antes de se tornar cineasta.

A série é também muito bem-humorada, inclusive com alguns momentos para gargalhadas. Os perrengues pelos quais René passa, em especial os causados por Gottfried, são a fonte da maioria das risadas. Outro destaque da série é a abertura, feita numa animação que emula os desenhos dos cartazes de filmes da década de 1910.

Parte da abertura de “Irma Vep”

Cartaz de 1915

Se você não se importa em receber spoilers de uma obra que estreou há mais de 100 anos, esta série é para você. No quarto episódio, um patrocinador define a série-dentro-da-série como “um produto de nicho, mas de prestígio”. O mesmo pode ser dito sobre várias produções da HBO, como a própria Irma Vep.

Partindo de um filme mediano seu, Assayas conseguiu fazer uma série excelente, que nos deixa feliz por ele ter tido esta oportunidade de fazer um remake de sua própria obra – talvez uma oportunidade que deva ser estendida a outros diretores.

Irma Vep

Irma Vep
10 10 0 1
Nota: Épico - 10/10
Nota: Épico - 10/10
10/10
Total Score iÉpico

Deixe um comentário

Sugeridos
Thunder Hoop Collection (QUByte Classics)
CríticasGames

Thunder Hoop Collection: o segundo conserta o que o primeiro estragou

A QUByte Classics juntou dois arcades da Gaelco na Thunder Hoop Collection:...

5b1aad8eff4579d3ed29f194435f3f49f629f6c64373b368cb390473a6029a9e
CríticasGames

Apidya’ Special: a abelha morre, a voz repete e a paciência acaba

Apidya’ Special é a refeitura de um shmup do Amiga lançado em...

Froggy Hates Snow
CríticasGames

Froggy Hates Snow quase frita o “Switão” em nome da diversão.

Um sapo, um deserto congelado e uma bolha de calor da qual...

Manairons
CríticasGames

Manairons e sua falta de “Tompêrro”

Manairons é um platformer 3D de ação que bebe do folclore catalão...

Kitchen Wars
CríticasGames

Kitchen Wars: o restaurante pega fogo, mas o cardápio é curto

Overcooked e Moving Out ensinaram muita gente a gritar com os amigos...

City Hunter
CríticasGames

City Hunter: divertido e mal maturado.

City Hunter nasceu em 1990 no PC Engine, baseado no mangá de...

Leste do eden ambrosia critica
CríticasSériesTV

Leste do Éden constrói um linda história sob olhar cortante

Existe uma carga poética e quase inescapável na adaptação de Leste do...

The Holy Gosh Darn
CríticasGames

The Holy Gosh Darn: o roteiro salva o céu

Confesso que não me motivo muito com jogos sem muita mecânica de...

Voidwrought
CríticasGames

Voidwrought: faz o óbvio melhor que todo mundo

Às vezes basta fazer o óbvio melhor do que todo mundo, e...

Contos Paralelos
CríticasFilmes

Festival do Rio 2026 – “Contos Paralelos” e a Fronteira Difusa Entre Fato e Ficção

Asghar Farhadi constrói elaborado meta-drama parisiense inspirado em Kieślowski e Hitchcock, que...

The Royal Writ
CríticasGames

The Royal Writ: bonito, polido e cheio de regra

Deckbuilder roguelike virou quase um gênero de prateleira própria depois de Slay...

Feito Pipa
CríticasFilmes

Festival do Rio 2026 – Feito Pipa é comovente em uma história de puro lirismo

Histórias coming of age são sempre um êxito na cultura pop, ainda...

The Stairwell
CríticasGames

The Stairwell: sustos gratuitos na escadaria infinita

Os jogos de “loop de anomalias” no estilo The Exit 8 viraram...

R Type Dimensions III
CríticasGames

R-Type Dimensions III: renomado, bonito em pixel art ou não

Tem franquia que dispensa apresentação, e R-Type é uma delas. R-Type Dimensions...

A Bola Preta
CríticasFilmes

Festival do Rio 2026 – “A Bola Preta” e o Peso da Memória Apagada

Há algo de profundamente mágico na atmosfera do Cinema Odeon durante a...

GOnzaguinha é
CríticasTeatro

“Gonzaguinha é” retrata o “Pescador de Ilusões” no Rio

Há de se celebrar, sempre, um artista como Gonzaguinha e sua obra,...

Realm of Ink
CríticasGames

Realm of Ink: Em nanquim com um pet pra chamar de seu

Não dá pra falar de Realm of Ink sem lembrar de Hades....