Thiago Scarlata é poeta, músico, escritor e criador/editor do Blog Literário Croqui. Teve poemas traduzidos para o espanhol, publicados em antologias e também nas Revistas Gueto, Enfermaria 6, Escamandro, Mallarmagens, Monolito, Avenida Sul, Incomunidade, Janelas em Rotação, Poesia Brasileira Hoje, O poema do poeta, Poesia Avulsa, Literatura&Fechadura, Vero o Poema, Carlos Zemek, MOTUS, Jornal Correio Braziliense, Jornal RelevO, além de blogs literários. É autor do livro de poesia “Quando Não Olhamos o Relógio, Ele Faz o Que Quer Com o Tempo” (Editora Multifoco, 2017). Fizemos quatro perguntas ao escritor. Confira abaixo.

1-) Gostei muito do seu livro. Há uma certa coloquialidade que me agradou muito, tanto no aspecto vocabular quanto nos seus temas. Fale-me desta escolha um pouco? 

Acredito que esse aspecto foi fruto de um processo de “dessacralização” da literatura. Fui me encontrando nesse meio conforme fui retirando alguns conceitos e crenças do pedestal. Literatura tem muito isso. Tem muito ego, floreio. Claro que tudo isso é resultado da imersão nas etapas que geralmente todos os amantes dela passam, iniciando pelos clássicos. O problema são os que ficam nos clássicos. Isso, de uma maneira geral, pode ser algo nocivo, como a adoção de uma concepção classista de Literatura. Comigo, a reviravolta veio com o contato com o que se faz hoje. Foi basicamente um processo de desmame mesmo. Comecei a entender que pra dizer o que eu queria dizer não precisava usar tanto rebuscamento.

No início da composição do livro, inclusive, me policiava para não maquiar demais os poemas. Nunca tive muita afinidade com autores que privilegiam demais o “como se diz” em detrimento do “o que se diz”, apesar de considerar nomes como Raduan Nassar e Bruno Schulz dos maiores que já li, pois esses dois, como alguns outros grandes, encontraram o equilíbrio. Usam prosa poética mas não se perdem em devaneios. Confio mais na poesia que nasce e morre nua. Minha predileção sempre foi por gente que diz muito com pouco e tento minimamente perseguir esse caminho. Hoje em dia, talvez, isso me chegue com um pouco mais naturalidade na hora de escrever. Adotei esse tipo de voz por ter uma química maior com a espontaneidade do popular. Valorizo a oralidade do dia a dia da cidade.

2-) Há um prosador por trás do poeta? Em seus poemas existe uma curiosidade pelo objeto pelo tema, pelos fatos. Você vê uma relação no que você escreve entre uma prosa e poesia? 

Sem dúvidas. Essa relação existe, acredito, justamente por essa minha valorização da oralidade. Hoje em dia, creio até que alguns poemas meus dariam um conto, ou um romance. Mas pra mim seria muito difícil ter certeza disso. Ainda estou nesse processo de aperfeiçoamento do olhar. Sacar quanto uma ideia pede um conto ou um poema. E tem uma outra situação nisso tudo. Atualmente, com a proliferação (muito positiva, no final da pesagem) de editoras independentes, sobretudo, há uma crença de que todo mundo pode publicar um livro e “ser escritor”. Mas veja, nem todo mundo nasceu pra ser poeta, romancista ou contista. Uma pessoa publica um livro de poemas e logo se espera que ele vá também para a prosa, a julgar pelo movimento que venho percebendo e dada a facilidade de publicação.

Eu não sei se eu daria um bom romancista. Já apanho pra caramba pra escrever um livro de poesia e levei tanto tempo pra achar meu ritmo no gênero… Ainda assim, estou me arriscando atualmente numa história que acredito ser um romance. Mas é um projeto que encaro de modo bem sem pressa. É coisa pra daqui a dois, três anos. Isso se, ao final da escrita, eu julgar que valha uma publicação, o que acho difícil. Fico na poesia mesmo, meu terreno um pouco mais firme.

3-) Vi também um recorte cronista em poemas seus, algo como Aldir Blanc que escrevia fazendo música sempre com um olhar agudo sobre o cotidiano ou natureza humana. Como você vê a relação da música com a poesia? 

Se você pegar a discografia de vários artistas, e aqui destaco o Chico Buarque, vai notar naturalmente o cronismo de suas canções. Dá pra entender – ou imaginar – muito da cultura de uma época por essas músicas. Mais uma vez eu cito o popular, que é o que me interessa. Em literatura, uma obra que me marcou bastante no que se refere a essa paixão pelo cotidiano foi “A alma encantadora das ruas”, de João do Rio: um apanhado de crônicas deste singular jornalista do século passado, em que retrata, sobretudo, a desigualdade e indiferença social, misturadas numa alegre e estranha homogeneidade com a vida de trabalhadores, mendigos, meninos de rua, profissões informais e a constelação dos tipos humanos que circulavam pelas ruas do Rio de Janeiro no início do século XX. Desta forma, não dá para desassociar música de poesia (dadas as devidas peculiaridades de cada uma), na medida em que ambas compartilham uma expressividade com um forte grau de parentesco.

4-) Você acha que a poesia é uma arte parceira da política? 

Acredito que sim. O melhor poema do Ferreira Gullar (Poema Sujo) foi escrito num período de exílio político, num contexto de Ditadura. O melhor álbum do Chico (Construção), a mesma coisa. Alguns dizem que períodos políticos ou sociais mais críticos são fontes mais poderosas de inspiração. Inclusive, os próprios autores já disseram que se não houvesse aquele contexto, essas obras nunca teriam nascido.

Canções e poemas se transformaram em bandeiras contra a Ditadura. Esse papel crítico da arte ao sistema é muito válido, apesar de não ser uma lei, já que em arte, à princípio, quase tudo é permitido. No meu caso, – e acho foi essa característica que gerou a tua pergunta – essa pegada mais crítica na maioria de meus poemas é algo que já me acompanha há um tempo.

Meu livro, inclusive, foi gerado nas minhas andanças pelo Centro a trabalho, nas observações que eu fazia no útero da cidade, sentindo o calor absurdo por dentro da roupa social o dia inteiro, vendo diariamente a multidão de moradores de rua, crianças nos sinais, homens revirando sacos de lixo em busca de restos azedos, enfim… Acho que um artista que se coloca completamente alheio a tudo o que se passa para fora dos muros de sua casa – já que em arte quase tudo é permitido – fatalmente produzirá uma arte oca, perecível. Poesia não pode ser só mera perfumaria.