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Livro de poemas 'Reverso dos dias" humaniza o tempo e a natureza em imagens sinestésicas

Se no Rio incide o sol, em Tóquio incide a luz prateada do luar. Para um viajante que ouse vasculhar cada centímetro de chão do planeta, o dia ou noite vai ser uma espécie de andarilho levando consigo a ampulheta das horas subjetivas. O homem neste imenso planeta é seu destino percorrido pelo tempo, muito no caso, o tempo cultural, uma ideia do que fazemos com ele.
Tá, mas será que a subjetividade de um ocidental ao falar do tempo seria semelhante à um oriental? Estamos realmente dicotomizados pelo linha que divide o hemisfério ocidente/oriente. Caso fosse pertinente perguntar a um poeta chinês como ele vê o bailar de um folha caindo de um árvore de 20 metros, e refazermos a mesma pergunta para um poeta brasileiro. E se resposta fosse um poema?
Neurônios são a base da comunicação do cérebro. A sua constituição é genética, herdamos uma certa constituição familiar. A parte cultural seria herdada por laços de sangue. Se pai é dono de banco, o filho na sua única acepção da palavra poderia ser um andarilho que volta e meia entra numa praça e senta num banco de praça. O sentido que damos às palavras passam do aspecto cultural para se moverem para um aspecto (moral) ou poético apenas.
No livro “Reverso dos dias” do poeta Vasco Cavalcante, pela Editora Patuá, o tempo não obedece ao eixo ou como a terra roda ou orbita. Poemas podem ou não ser corpos. Podem ou não girar em torno de um centro, de uma gravidade, mas eles são primeiramente livres do peso cultural e moderador que se dá à tudo que não seja projétil.
O poeta não situa seu eixo sobre um conceito, nem lugar. Faz apenas planuras ou riscos numa terra que é especialmente orgânica e natural. A rapidez de passagem como um passeio de traineira pelo Rio por inúmeras imagens que amassam ou concentram o veio de um rio, um ideia de nuvem que já num verso seguinte pode tá imantada de sangue.
Aqui o deslocamento não é de alguém pegando um avião e indo para Tóquio, ver o fuso-horário ser o duplo de um tempo polarizado. Não. O poeta desloca-se pelo processo de metaforizações de ações e matérias que estão em vida talvez bem distantes, mas que no tamanho do poema ou na sua estroferização na sequência do bater palavra com palavra, cria o que o leitor pode saber ser um efeito sinestésico.
Humanizar o natural ou a natureza, criar vida naquilo que os olhos se põe a olhar como um céu estrelado, como um passeio de barco à noite pelo mar bravio. Relações entre afetos e a natureza estão diante dos nossos olhos. Quantas vezes o mar já não foi corporificado numa espécie de monstro maligno? À poesia, cabe ser o meio através da linguagem de tirar fronteiras entre coisas e qualidades díspares.

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