Cinthia Kriemler Todos os abismos capa
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“Todos os abismos convidam para um mergulho” é um belo corpo ético sobre o ser

Um lugar inóspito é um lugar onde não tem pessoas? Não tem convívio? Uma parte da geografia onde as condições meteorológicas não são adaptáveis ao homem e por tabela à formação social. Estou me referindo ao deserto. Desertar: abandonar lastros e laços, abandonar um seio social em busca de suas questões. Imagino um imenso formigueiro com milhares de formigas nesta localização desértica tentando o socialismo de uma organização social.

Há gente que se sente como um deserto, pela falta de afeto de suas fronteiras que no caso não são países, nem territórios, mas corpos, extensões de afetos e amor procurando alteridades. Somos inteiramente apegados aos outros: pais e não países, amigos, amores. Somos o silêncio da escuta, antenas receptoras do que nos chegam de tatos e contatos ao nosso núcleo-ser.

Beatriz, personagem do romance Todos os abismos convidam para um mergulho da escritora Cinthia Kriemler (editora Patuá) narra como se narração fosse uma longa travessia de sua percepção honesta que tem de si. Busca apesar da dor que carrega de dentro de dela, o fio longo de tessituras ao traçar seus afetos principalmente no seu trabalho de assistente social resgatando pessoas que estão como Isabel com sintomas de depressão. Há uma interessante forma da narradora se colocar e tomar posições quanto sua história que é de honestidade, de fala/linguagem, aquela que pode atravessar desertos e chegar ao ponto mais habitado.

Talvez esta personagem queira buscar motivos para o pai ter sido tão desastroso e destrutivo com ela. Se postou enquanto figura paterna gerando imagens, todas, de  forma equivocada. (A imagem especular e lacunar foi para a filha, uma imagem abortiva) Para estabelecer afetos é necessário um contato que flua amorosamente nos dois sentidos. A imaginação, casos destes, é terrível para o ser em falta. O livro de Cinthia encanta pela alteridade que busca em processos dolorosos como a depressão, a construção de uma personagem indolente, brava, como Beatriz, em fazer seus caminhos internos mesmo que duramente através da análise feita com sua psiquiatra, fazendo, ela mesma, um desenho interno de suas volições de seus desvãos por onde tanta dor e falta lhe tiram seu norteio.

O que o leitor apreende de um livro? Que o personagem pode trazer um traço de identificação com ele? Que quando o narrado passa pelo viés da escrita austera e honesta, sua postura de leitor ao ler o livro também pode ser sugestionada para seu bem, em relação ao que absorveu. Não à toa, o leitor que vos escreve, ao terminar o livro, buscou lá no fundo da sua imaginação uma idealização possível: um corpo, uma presença para-de Beatriz. Pois o corpo matéria orgânica: é tudo-Equivalências, identificações, afetos e respeito.

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