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Livro "Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha" reformata em contos ferinos a forma humana da sua obra

Sempre fiz de tudo para duvidar! Mas há uma pergunta que me dá coceiras em uma das minhas orelhas (rs). Se Deus é bom, qual relação que nós temos com ele? Apenas uma via de purgação de pecados que são os “infortúnios” que vemos por aí pelo mundo, mas para igreja, pecados convencionais e fabricados por um tipo de cartilha da igreja. – Só para constar, Kieslowski revisou os dez mandamentos. Acho eu, que há uma espécie de oratório muito mais esclarecedor quanto uma possível luz divina que igreja preconceba. E sim, crítica, quanto à marcha do homens na terra. Enquanto a igreja propaga a fé com dízimos e diz com quem? andas,  os escritores propagam o ceticismo de convicção. É aceitar o valor da revisão com(o) um belo texto, o valor da resenha de uma bela obra? (homem) .
Há escritoras e escritores que usam um outro tipo de hóstia, que não da hostilidade em um tom acima do rancor e raiva com o mundo. Este não são proveitosos para uma avaliação normativa das coisas. O escritor precisa se sujar com a feiúra humana ou até com a própria merda para depois através da fabulação, não apontar caminhos, pois literatura não se aponta o dedo para ninguém, mas deixar suas “marcas” evocativas e epifânicas sobre o percalço humano na terra.
Vi-me pensando nestes colóquios & (in)certezas, quando li o livro de contos Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha da escritora russa Liudmila Petruchévskaia que acaba de sair pela Companhia das letras. Os contos são divididos em linhas de formação tanto geográfica como de estilo ou forma literária. O que percebo pela leitura é uma aguda forma de observação do local de origem, mas que de certa maneira torna-se universal pela frase famosa que sentenciou: se queres ser universal fale de  sua aldeia. A literatura como o cinema consegue transpor barreiras de língua e fronteiras para falar do caldo humano que fermenta em qualquer tacho, e que o escritor faz através de sua escrita, transbordar este caldo da borda do país, da sua região,  criando nos leitores de outras línguas uma própria identificação com enredos e histórias daquele lugar.

Luidmila conta estórias onde os sentimentos humanos são misturados com seu reverso. Sua forma de narrar que me lembrou muito a voz da Wislawa Szysborska com certas dicções de operar a ironia e a acidez com relação ao universo que retrata, algo como uma fala científica que designa (meio à distância). A autora dualiza sempre ações humanas, uma certa dicotomia entre o bem e o mal, não no aspecto religioso, punitivo, mas no cárater de como a corrupção humana pode estar atrelada a uma problemática do afeto-desejo e de como (re)alocá-lo do melhor jeito. Algo como, é sempre na perigosa tentação de errar (no nível mais raso!) que o erro acaba sendo o mais grosseiro. Na sua voz que não soa condescendente com os erros-maldades humanas, nunca! mas que os organiza com uma ironia certeira que não nega o outro.
Os seus personagens tanto homens com mulheres são movidos pela potência do afeto ao outro, como nos contos A menina – nariz e o Pai, contos que surgem  de uma vontade de alteridade, no caso do primeiro conto, de ser aceita pelo par, e no outro conto de ter laços familiares. O amor nos seus contos nunca vem inteiramente puro, há sempre um mistura de outros aspectos conflitantes que rondam relações entre as pessoas, levando às vezes a certos pendores ou ao heroísmo ou altruísmo.
Interessante notar que o aspecto do país de origem  da qual a fala se origina também é um elemento de formação da análise da autora  enquanto formação cultural que molda ou não um tipo de padrão de comportamento social.

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