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Candelaria (2017) traz uma história de amor e velhice

Em meio à crise econômica, casal redescobre a alegria de viver nesta dramédia autoral latinoamericana

Há milhares e milhares de filmes na Netflix. Entre eles, há muitas produções internacionais, não hollywoodianas, que dificilmente chegariam ao público brasileiro se não fossem adquiridas para distribuição pela Netflix. Uma dessas produções é Candelaria, com elenco cubano e apoio financeiro de vários países, que trata do “Período Especial” de Cuba – a crise econômica depois da queda do Muro de Berlim – mas sem entrar em detalhes ou críticas políticas. Os protagonistas são um casal de idosos que reacendem a chama da paixão através de – entre todas as coisas possíveis – contrabando.

Candelaria (Verónica Lynn) trabalha na lavanderia de um hotel durante o dia e em algumas noites canta com um conjunto musical em um bar. A dupla jornada não é suficiente para garantir uma vida digna para ela e o marido, Victor Hugo (Alden Knight), um fanático por beisebol que trabalha em uma fábrica de charutos. O país está em crise, eles podem comprar apenas comida racionada e a felicidade parece ter sido deixada no passado.

Um dia, Candelaria encontra um equipamento de filmagem entre os lençóis da lavanderia e decide levá-lo para casa. A ideia inicial é vendê-lo no mercado negro, assim como Victor Hugo faz com os charutos para garantir um dinheiro extra. Victor Hugo, entretanto, exige que a esposa devolva o equipamento no hotel, para evitar problemas. Mas a curiosidade fala mais alto e ele decide ver como se mexe na câmera, e se empolga com a novidade.

Victor Hugo filma Candelaria e dá um close-up nas pernas dela. Sentada na cama, logo depois do banho, enrolada na toalha, suas pernas envelhecidas podem parecer a antítese do que é considerado sensual, mas para Victor Hugo o corpo da esposa é lindo. Ela ri de um jeito jovial ao ver o filme resultante, e como resposta deixa uma surpresa gravada na câmera para o marido: um strip-tease ao som de uma música que ela mesma canta.

O resultado é que Candelaria e Victor Hugo voltam a ser felizes. E a felicidade os leva a querer dar mais um ao outro. Assim, Victor Hugo conhece um contrabandista chamado Carpinteiro (Philip Hochmair), e vende a ele seu relógio em troca de dólares. Na vez seguinte em que encontra o Carpinteiro, é porque sua câmera foi roubada e, como todo produto roubado, certamente foi parar nas mãos do contrabandista. Dito e feito: lá estão a câmera e os filmes. O Carpinteiro então faz a Victor Hugo uma proposta indecente: ele poderia ganhar dinheiro sempre se convencesse Candelaria a gravar mais daqueles “pornôs sênior”.

Na maior parte do tempo, o filme tem tom de comédia. É uma delícia ver Victor Hugo e Candelaria redescobrindo a alegria de viver e fazendo algumas bizarrices durante o processo. Eles redescobrem o prazer de se beijar sem motivo aparente, de dançar mesmo se tiver alguém olhando, de subir em um palco para compartilhar uma música. Eles percebem que é nas pequenas coisas que está o amor, vivo e forte mesmo depois de quarenta anos de casados.

Jhonny Hendrix Hinestroza, diretor, produtor e co-roteirista, é colombiano e se inspirou nas experiências de seu próprio pai e na história cubana para fazer o filme – daí a escolha de ter Havana, a capital de Cuba, como cenário da história. Ele defende que está contando uma história latino-americana por excelência, por conta das crises que já assolaram a região terem deixado milhões de pessoas como Candelaria e Victor Hugo: tendo de economizar nas contas, incertos em relação ao futuro e percebendo que é nestas horas que descobrimos quem se importa conosco de verdade.

Candelaria é uma co-produção entre cinco países: Colômbia, Cuba, Argentina, Alemanha e Noruega, prova de que o roteiro encantou a muitos investidores. E eles tiveram um excelente retorno por investirem no filme. Financeiramente, o retorno veio quando Candelaria ficou entre as 15 maiores bilheterias em seu final de semana de estreia na Colômbia, no final de agosto de 2018. Se considerarmos que prestígio também é um tipo de retorno, o filme teve êxito ao ser selecionado para diversos festivais ao redor do mundo, ganhando muitos prêmios, incluindo um troféu no Festival de Veneza.

Por mais que fiquemos mal-acostumados na Netflix, vendo sempre as mesmas séries e filmes e confiando no algoritmo que nos indica coisas semelhantes aos nossos gostos, é bom sair da mesmice de vez em quando. Saímos da mesmice com Candelaria, mas somos surpreendidos ao encontrarmos uma história que nos parece familiar, com protagonistas carismáticos e uma lição sobre as tristezas e belezas da vida.

Avaliação 4,5

Publicado por Letícia Magalhães

Letícia Magalhães é estudante universitária e tem três livros publicados. Desde cedo mostrou interesse pela escrita. Atualmente mantém o blog Crítica Retrô, sobre cinema clássico, e escreve para os sites Filmes e Games e co-edita a publicação multilíngue Cine Suffragette..

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