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Um paranoico em meio a um apocalipse zumbi em "I Am a Hero"

Um dos mangás mais falados atualmente é I Am a Hero, do mangaká Kengo Hanazawa, lançado recentemente pela editora Panini. A premissa já é conhecida, uma fórmula repetida, mas é a resposta japonesa ao sucesso de Walking Dead. Com a condição de que, enquanto no trabalho de Robert Kirkman o protagonista (Rick Grimes) se destaca em meio ao apocalipse zumbi, Hideo Suzuki, o protagonista deste mangá, é a antítese disso.
Esquizofrênico, paranoico, estranho e medroso ao extremo, com uma namorada que não ajuda muito a injetar autoconfiança – ela trabalha como assistente de um mangaká, que está ali por não conseguiu lançar sua série. Para fins práticos, estamos diante de um autêntico perdedor de que é quase impossível gostar.
Um paranoico em meio a um apocalipse zumbi em "I Am a Hero" | Críticas | Revista Ambrosia
Ao tratar de zumbis e quadrinhos, é quase impossível não relacionar o mangá com a série de Kirkman. Entretanto, há poucas semelhanças entre as duas propostas. Em I Am a Hero, Kengo parece mais interessado, pelo menos neste primeiro volume, na apresentação do protagonista como a pessoa menos adequada para sobreviver em um mundo hostil.
Um paranoico em meio a um apocalipse zumbi em "I Am a Hero" | Críticas | Revista Ambrosia
Na verdade, quando imersos na leitura, somos levados pelo autor ao mundo por trás dos olhos de Hideo, ou seja, coisas estranhas estão acontecendo, que aparecem como flashes de notícias. Em um ritmo lento, o autor nos mostra sinais do que está ocorrendo, mas estamos tão distraídos no cotidiano desse perdedor que somos levados a nos comportar quase como o protagonista, sem perceber a tragédia que marcará a todos. O autor, só no final, apresenta o momento fatídico, bastante impactante, e então percebemos o quão magistral é o argumento construído por Hanazawa, pelos pequenos detalhes que somente uma segunda leitura para compreender tudo que Kengo escondeu em mais de duzentas páginas.
A série então é sobre as aventuras de um mangaká malsucedido, o Hideo Suzuki, que tentará sobreviver no Japão após uma epidemia misteriosamente se espalhar, zumbificando os infectados. Como é habitual nessas histórias, o surgimento da doença não é algo relevante, ou pelo menos não por enquanto. Mas os mortos-vivos se diferem daqueles que conhecemos em TWD. Aqui os zumbis são ágeis, letais, gaguejam lembranças de situações passadas, com veias e feridas, pesadelos vivos como nunca vistos.
A narrativa idealizada por Kengo Hanazawa é tão inteligente quanto intensa. Seu protagonista é bem realista e da maneira que é construído nos faz duvidar se será capaz de chegar ao fim da história, sem se tornar um zumbi. A priori não parece que isso possa acontecer, pois acredito que estamos diante do que pode ser uma história interessante imbuída de crescimento pessoal.
Um paranoico em meio a um apocalipse zumbi em "I Am a Hero" | Críticas | Revista Ambrosia
Se o roteiro, a caracterização e as situações caracterizam tão bem a série, a arte não fica atrás, em um equilíbrio quase perfeito. E Kengo nos surpreende com seu traço fino e elegante, cheio de detalhes em que os personagens são tão bem cuidados, assim como os cenários. Bom uso de repetição de páginas, elementos cinematográficos e movimentação de acordo com os personagens. A aparência dos zumbis assusta de longe, com veias, feridas, além de cenas que configuram o mangá para maiores de 18 anos.
 
Um paranoico em meio a um apocalipse zumbi em "I Am a Hero" | Críticas | Revista Ambrosia
A edição da Panini é, como sempre, caprichada, com tradução de Lídia Ivasa. O volume possui orelhas e avisos para os ocidentais, e as primeiras páginas coloridas e o papel utilizado para o volume é de qualidade. Uma série 100% recomendada, uma proposta adulta interessante que merece atenção. É hora de se preparar para ler o segundo volume.

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